Noites e noites deitando sobre o travesseiro imagens que nunca passam de meras figurações do que poderia ser realidade. Se ainda não o são é por culpa da covardia. Desculpe ser tão rude, mas me fogem eufemismos para essa desqualificação.
Sobre a mesa uns pequenos pedaços de papel colorido, rabiscados com lembretes de tarefas que jamais serão cumpridas. Só não é tortura porque de alguma forma os papéis a confortam de um jeito mórbido e sombrio. É como uma deixa para qualquer desculpa mal inventada se encaixar perfeitamente na sua consciência covarde.
A cada mês passado aumenta a sensação de que o que deveria ser feito fica gradativa e definitivamente para trás. Acho que ela espera por isso. Espera que a sua mente se esqueça de anotar novas tarefas nos papéis coloridos. Porém com todos os dias nasce um novo desejo. Acumulam-se em montanhas coloridas de celulose, quase tão grandes quanto o medo de realizá-los.
Encontrei-a outro dia passeando. Tinha agarrada ao colo um livro grosso e aparentemente pesado. Assim que a vi acenei e tive como retribuição um lindo sorriso. Nos aproximamos e conversamos. Perguntei o que era o pequeno papel rosa colado ao livro. Respondeu-me serena que estava indo viajar.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Clarisse
Não conheço Clarice.
Nunca a vi passar.
Algum mistério que a
envolve me desperta
Curiosidade ao reverso.
Vontade de conhecê-la
fisicamente não tenho.
Gostaria mesmo era de
desvendá-la.
O que queria dizer
Clarice?
É o que dizem por aí.
Seria mesmo triste
assim?
Acreditando e
desacreditando no amor.
Clarisse.
Dizem que se parece com
uma flor.
Só que desabrocha no
inverno.
Para reinar sozinha
Infinita
Na imaginação de todo
beija-flor.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Quitéria
Quitéria pare de reclamar! Mas que coisa Quitéria! Já lhe disse que se a comida estiver sem sal, bote. O dia está de gelar as canelas? Agasalhe teus cambitos. Nunca vi quem reclamasse mais que ela. Coitada da Quitéria. Ficava sentada, ouvindo a própria respiração na varanda que dava de frente pra Rua do Cisne. Passava o Zé Ferreiro, o Maltinho e o Milton Jacarandá. Quitéria mandava uma "olá". Mas ninguém se dava ao esforço de retribuir o cumprimento. Como era feia e desajustada a bichinha. De dar dó. Era compreensível que a mulher não calasse a matraca, reclamando de Buda a Maomé.
Mas um dia, que nem belo era, apareceu na vida de Quitéria um moço dos mais corajosos. Galenteava como um princípe aquele ser de rosto castigado pela natureza. Os cromossomos da beleza a abandonaram. Mas os da sorte foram solidários. Quitéria fazia-se de difícil, mas sabia que era aquela a única saída pra se desvirginar no amor. E o moço, além de corajoso, era insistente. Perseverou até o dia que comprou uma flor. Quitéria enfim acreditou, que o seu destino enfim a ajudou. Quando ela finalmente disse sim, o moço teve os olhos abertos, o encanto disperso e um grito soltou: Meu Santo Deus do Céu!
Mas um dia, que nem belo era, apareceu na vida de Quitéria um moço dos mais corajosos. Galenteava como um princípe aquele ser de rosto castigado pela natureza. Os cromossomos da beleza a abandonaram. Mas os da sorte foram solidários. Quitéria fazia-se de difícil, mas sabia que era aquela a única saída pra se desvirginar no amor. E o moço, além de corajoso, era insistente. Perseverou até o dia que comprou uma flor. Quitéria enfim acreditou, que o seu destino enfim a ajudou. Quando ela finalmente disse sim, o moço teve os olhos abertos, o encanto disperso e um grito soltou: Meu Santo Deus do Céu!
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Que Seja
Que chova
Que molhe
Que fale
Que chore
Que cale
Que esqueça
Que queira
Que peça
Que ouse
Que seja!
Que molhe
Que fale
Que chore
Que cale
Que esqueça
Que queira
Que peça
Que ouse
Que seja!
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Acordem barbados!
Sei que não tenho nada
a ver com isso - e nem venha tentar me convencer de que tenho. Mas é
que fiquei muito encabulado com essa história toda. Analisemos o
cenário e seus personagens. O local sacrossanto do livre pensamento
é ferido pela presença de autoridades odiadas pelo futuro da nação,
mas que dias antes tiveram seus serviços solicitados de joelhos pelo
senhor reitor, acatando reivindicação dos frequentadores do
ambiente. Frequentadores estes que tinham razão em querer não levar
uma bala na cabeça ou ser uma vítima do ainda não inventado
maníaco da Cidade Universitária. A coisa estava tão tensa que a
rapaziada resolveu dar uma relaxada. Coisa pouca. Opa! Peraí! Cadê
a minha liberdade agora? Apagaram com o coturno.
O futuro da nação não
gostou nada disso, e viu nesse factoide a perfeita oportunidade de
seguir as tendências mundiais. Como assim, somos jovens em um país
desigual e não lutamos por nada?! Que absurdo, que injúria!
Brigaremos então pelos alunos repreendidos pelos malévolos homens
da lei. Falando em lei, gostaria de lembrar que que ela existe. Longe
do pensamento fundamentalista, acho saudável quebrar regras e até
leis de vez em quando. Eu mesmo o faço. Claro que não contarei
quando e como. Sabe por quê? Simples. Por causa das consequências.
Faço errado e sei disso. Não tento convencer o mundo do contrário.
Moralismos à parte,
ética e bom senso à parte, a bula do simancol à parte, o que está
mesmo faltando ao futuro da nação é uma boa dose de realidade.
Matéria que deveria ser incluída na Fuvest do ano que surge. Quem
sabe assim as caras metidas em Foucault e Marx olhem para o mundo aqui
fora e possam finalmente exercer a intelectualidade com o mínimo de
discernimento e um pouco menos de paixonite aguda pelo suposto poder
de poder qualquer coisa. Quem mais sai perdendo com essa zona toda é
o meu, o seu e o futuro deles; o futuro da porra da nação.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Melhor Assim
Viver é simples e involuntário. Respirar é a
prova disso. Dominar as ações é praticamente impossível,
teoricamente utópico. Os desejos corroem as entranhas até que sejam
saciados, expurgados do corpo e da alma como o diabo na exorcismação.
E isso tira toda e qualquer possibilidade de domínio sobre a vida e
seus elementos.
Milênios nos desafiam e riem de nós, soltam
gargalhadas titânicas. Tudo porque, ingênuos, não temos ínfima
noção do que estamos fazendo neste mundo. É desaconselhável
refletir em demasia sobre a questão. A história prova que muitos
tentaram, mas quedaram diante da loucura. Se fosse o destino de tal
mistério ser compreendido, já o teríamos feito. É disso que
debocham os milênios.
Tentativas mais coerentes e saudáveis são as que procuram decodificar pequeninos problemas. Mínimos diante da grandeza da humanidade. Problemas de amor, de necessidade, de egoísmo, de ódio, de amor. Pois cada um de nós tem situações suficientes para gastar seus dias. Prefiro não descobrir a que vim, para não saber que fracassei.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Ode à Amizade
Selo nossa amizade com lágrimas no teu ombro.
Uma maneira infantil, mas sincera ao extremo.
Finalmente me conheceste e eu a ti.
Confio a minha devoção à memoria da sua compreensão.
Entre nós já não há esconderijos, já que de verdade
Me virei ao avesso de forma irrepreensível.
Sou muito além do que digo ser
E posso menos do que julgo poder.
Posso, pelo menos, jurar que não há preço
Argumento ou contexto
Que faça me esquecer do teu gesto.
Está guardado para sempre teu afago
Só o que tenho a dizer é:
Muito obrigado.
Uma maneira infantil, mas sincera ao extremo.
Finalmente me conheceste e eu a ti.
Confio a minha devoção à memoria da sua compreensão.
Entre nós já não há esconderijos, já que de verdade
Me virei ao avesso de forma irrepreensível.
Sou muito além do que digo ser
E posso menos do que julgo poder.
Posso, pelo menos, jurar que não há preço
Argumento ou contexto
Que faça me esquecer do teu gesto.
Está guardado para sempre teu afago
Só o que tenho a dizer é:
Muito obrigado.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
De Levante
Parece uma grande esteira automática rolante cercada de neblina e comigo a tiracolo. Acelerar o passo me desequilibra. Contê-lo não funciona. Vivo ao sabor da esteira. Ela me leva, eu não reclamo. Assim vamos, juntos. Eu e a esteira. Nunca perguntei aonde ela dá. Nem sei se minha companheira tem um final. Confio nela, mas não deveria. Afinal, para o que ela me leva?
Sem poder ver alguns metros a frente, achei de bom gosto abandonar a razão. Pensar é só um passatempo. Sentir é uma condenação. Ela, a esteira, decidiu assim. Ela me leva, eu não questiono. O que mais poderia ser assim tão intenso? Se eu é que levasse a esteira? Impossível. Pouco atraente inclusive. Cairia no erro mais primário: confiar em minhas convicções.
Estar convicto é deleite passageiro. Como tudo o que é bom e ruim. Permanente mesmo é a esteira. Que nem é boa e nem ruim. Ela é o que quero que ela seja. Até porque nunca pensei em que raios ela é de verdade.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Se Sou Orgulhoso?
Se sou orgulhoso?
É claro que não!
Onde já se viu?
Dizer que estou errado.
Meu orgulho guardo no bolso.
Pra ficar mais fácil de usar.
Até que sou um bom moço.
Só não ouse me contrariar.
Sei tudo do nada.
Sei nada de tudo.
Ou seria ao contrário?
Contrário ao meu orgulho.
É claro que não!
Onde já se viu?
Dizer que estou errado.
Meu orgulho guardo no bolso.
Pra ficar mais fácil de usar.
Até que sou um bom moço.
Só não ouse me contrariar.
Sei tudo do nada.
Sei nada de tudo.
Ou seria ao contrário?
Contrário ao meu orgulho.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Afã
Fanatismo é uma palavra assustadora. Sinto algo parecido com claustrofobia - não sei dizer exatamente o que é - quando ouço ou leio esse verbete. Fico ainda mais aterrorizado com o apócope "fã". Ô coisinha minúscula e destruidora!
Quando alguém me diz que é fã de alguém, me preparo para uma tempestade passional de elogios e frases carinhosas. Nada de errado nisso. A não ser pelo fato de que o agraciado pelos afagos verbais não tem a mínima noção sequer de quais são as iniciais do seu admirador. As partes nunca se encontraram, e possivelmente nunca se encontrarão. Mas por alguns estímulos de ordem midiática, surge uma paixão unilateral. E o fã, coitado, prende-se na perfeição do ídolo. Quer ser igual. "...ou parecido. Já serve...".
O problema é que ídolos também são fãs. Assim o efeito dominó é desencadeado, encadeando cada vez mais as pessoas. Um é fã de outro que é ídolo de um. Mas sem drama eu compreendo tudo. Sejamos fãs de qualquer um, menos de nós mesmos. Porque de autogênios o mundo já está farto. Como dizia meu ídolo Fernando Pessoa: "...E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não podem haver tantos", não é verdade?
Quando alguém me diz que é fã de alguém, me preparo para uma tempestade passional de elogios e frases carinhosas. Nada de errado nisso. A não ser pelo fato de que o agraciado pelos afagos verbais não tem a mínima noção sequer de quais são as iniciais do seu admirador. As partes nunca se encontraram, e possivelmente nunca se encontrarão. Mas por alguns estímulos de ordem midiática, surge uma paixão unilateral. E o fã, coitado, prende-se na perfeição do ídolo. Quer ser igual. "...ou parecido. Já serve...".
O problema é que ídolos também são fãs. Assim o efeito dominó é desencadeado, encadeando cada vez mais as pessoas. Um é fã de outro que é ídolo de um. Mas sem drama eu compreendo tudo. Sejamos fãs de qualquer um, menos de nós mesmos. Porque de autogênios o mundo já está farto. Como dizia meu ídolo Fernando Pessoa: "...E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não podem haver tantos", não é verdade?
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