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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Giba


O topete. O problema é o topete. Não consegue de jeito nenhum ajeitar os fios de cabelo de forma que os deixem no formato e curvatura suficientemente elegantes para o seu próprio agrado. Já são quase duas da tarde e o topete ainda não está legal. Após mais uma olhada no espelho de mão e outro suspiro de descontentamento, o pequeno Gilberto resolveu abstrair e procurar alguma forma de entretenimento. Como costumamos fazer com a dor, para não lembrar dela pedimos cócegas.
Levantou da gorda cadeira revestida de couro, espreguiçou-se e arranjou a gravata. Com o polegar opositor e o indicador abriu uma fresta na persiana e avistou o velho Viaduto do Chá. Viu os plebeus se trombando feito formigas e fez uma carinha de nojo. Só de lembrar da campanha eleitoral quase caiu de náuseas e correu para o álcool em gel.
Essa lembrança lhe deu uma ideia. Seria ótimo proibir o contato com o povo. Ainda mais nessa época da internet.
Apertou a tecla do telefone desinfetado e chamou a secretária.
_Cirlene, você poderia convocar o escrivão, por favor? Tive outra excelente ideia para um projeto de lei. Os vereadores vão adorar!
_Sim senhor, senhor Gilberto.
_Senhor? Olha lá como me chama Cirlene. Nada abaixo de excelentíssimo me agrada.
_Sim senhor, senhor excelentíssimo.
_Puta merda Cirlene. É “sim, excelentíssimo Gilberto”.
_Sim senhor.
_Ah vai se fuder! Você está proibida de ser minha secretária.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Lábios Rubros


O barulho líquido que faz a cerveja ao cair no copo roubou a atenção que ele prestava àqueles lábios lindos e rubros. Sem se dar conta de que o que saia deles percorria um caminho tortuoso de um ouvido a outro, porém sem a devida parada na consciência. Sabia que na verdade qualquer palavra proferida por ela soaria bem. Como todas as outras vezes preferia ouvir a falar. Afinal não encontrava motivos para interromper o deleite da observação. Novos contornos se exibiam a cada novo encontro. Novas razões para continuar calado, observando e criando na fertilidade da imaginação um cenário perfeito em tempo, lugar e situação. A garganta permanecia seca, mas a cerveja veio salvá-lo.
Ela pensava em duas situações. Quem realmente ele era e o que ele queria. Apesar de saber muito sobre o sujeito, tinha lá suas dúvidas quanto aos desejos e intenções do rapaz. Alguma coisa naquelas sobrancelhas dizia que valia a pena tentar descobrir, mas os olhos que não desgrudavam dos lábios a incomodavam, mesmo que isso também causasse uma estranha sensação de satisfação. Incrivelmente pensava em tudo isso sem deixar de falar um só segundo.
Ele via a noite nascer por detrás dos cabelos dela. Questionou-se se aquele tipo de encantamento poderia ser cessado quando quisesse. Desesperado caiu em si que não. Iniciou uma sequência devastadora de piscadas rápidas, a fim de umedecer as córneas. Ajeitou-se diversas vezes na cadeira. Bebeu de uma só vez a cerveja espumada do copo americano. Ficou tão inquieto que pediu licença interrompendo a oratória da garota dos lábios rubros e foi ao banheiro. A essa altura crente de que água no rosto traria o efeito de um bom tempo passado.
Ela assustou-se com o repentino sobressalto. Preocupada abandonou a elaboração de teorias sobre o futuro e suas escolhas. Levantou e foi à porta do banheiro saber se ele estava bem. Bateu delicadamente e perguntou com as pontas dos dedos o que ele tinha. Ele respondeu que estava bem, que só tinha levado um susto.
Ao ouvir a voz dos lábios rubros sem vê-los pela primeira vez, percebeu que a voz era tão doce e aveludada quanto a imaginava por inteiro. E o tom preocupado que ela tinha empregado na interrogativa fez sentir-se melhor, mais sereno.
Ela respondeu que o esperava de volta, na mesa.
Ele disse que já estava indo.
Ela só queria vê-lo e ter a certeza de que estava bem.
Ele jogou mais água no rosto.
Ela já não pensou em mais nada.
Ele também não.
Eles conversaram o resto da noite e pela manhã os lábios já não eram mais rubros.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O Primeiro Voo

Se os dias fossem todos como aquele, certamente não os confundiria na memória. Apesar dos poucos e primeiros anos teve uma experiência que lhe deixou pasmado, incrédulo e flutuando. Sentado sobre a grama-capim, debaixo de um pé de jabuticaba, sentia um tédio natural de garoto da cidade. Pai e mãe trocavam novas com a avó dentro do casebre de madeira que cheirava aos anos passados. Era a primeira visita do pequeno rapaz aos aposentos interioranos da família. Seus pensamentos eram indecifráveis porque não dominava o vocábulo. Enquanto seus olhos e mãos se concentravam num brinquedo de plástico poligonal sentiu um rápido zumbido passar muito próximo de uma das orelhas. Pensou ser qualquer coisa que ele aprenderia a nomear somente alguns anos mais tarde. Continuou atento ao brinquedo. Quando um som doce e agudo lhe fez subir os olhos para frente. Era um bichinho pequeno e bicudo. A curiosidade de criança tomou seu pequeno corpo e o fez engatinhar até o bicho. Estendeu as mãos e o bicho subiu. O menino abriu um sorriso lindo e sincero. Sentiu o deleite da confiança. Mas então o bicho voou. Os seus olhos fitaram a trajetória do seu novo amigo, sua boca se abriu e lágrimas se apresentaram. O garoto descobriu pela primeira vez o que era um pássaro voando depois de tê-lo nas mãos. Saudade.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Ela Que Não Sabe (Quer) Realizar

Noites e noites deitando sobre o travesseiro imagens que nunca passam de meras figurações do que poderia ser realidade. Se ainda não o são é por culpa da covardia. Desculpe ser tão rude, mas me fogem eufemismos para essa desqualificação.

Sobre a mesa uns pequenos pedaços de papel colorido, rabiscados com lembretes de tarefas que jamais serão  cumpridas. Só não é tortura porque de alguma forma os papéis a confortam de um jeito mórbido e sombrio. É como uma deixa para qualquer desculpa mal inventada se encaixar perfeitamente na sua consciência covarde.

A cada mês passado aumenta a sensação de que o que deveria ser feito fica gradativa e definitivamente para trás. Acho que ela espera por isso. Espera que a sua mente se esqueça de anotar novas tarefas nos papéis coloridos. Porém com todos os dias nasce um novo desejo. Acumulam-se em montanhas coloridas de celulose, quase tão grandes quanto o medo de realizá-los.

Encontrei-a outro dia passeando. Tinha agarrada ao colo um livro grosso e aparentemente pesado. Assim que a vi acenei e tive como retribuição um lindo sorriso. Nos aproximamos e conversamos. Perguntei o que era o pequeno papel rosa colado ao livro. Respondeu-me serena que estava indo viajar.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Quitéria

Quitéria pare de reclamar! Mas que coisa Quitéria! Já lhe disse que se a comida estiver sem sal, bote. O dia está de gelar as canelas? Agasalhe teus cambitos. Nunca vi quem reclamasse mais que ela. Coitada da Quitéria. Ficava sentada, ouvindo a própria respiração na varanda que dava de frente pra Rua do Cisne. Passava o Zé Ferreiro, o Maltinho e o Milton Jacarandá. Quitéria mandava uma "olá". Mas ninguém se dava ao esforço de retribuir o cumprimento. Como era feia e desajustada a bichinha. De dar dó. Era compreensível que a mulher não calasse a matraca, reclamando de Buda a Maomé.

Mas um dia, que nem belo era, apareceu na vida de Quitéria um moço dos mais corajosos. Galenteava como um princípe aquele ser de rosto castigado pela natureza. Os cromossomos da beleza a abandonaram. Mas os da sorte foram solidários. Quitéria fazia-se de difícil, mas sabia que era aquela a única saída pra se desvirginar no amor. E o moço, além de corajoso, era insistente. Perseverou até o dia que comprou uma flor. Quitéria enfim acreditou, que o seu destino enfim a ajudou. Quando ela finalmente disse sim, o moço teve os olhos abertos, o encanto disperso e um grito soltou: Meu Santo Deus do Céu!

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A Primeira Mentira

Logo que saiu daquele úmido e gelatinoso lar desatou a chorar. Não antes de levar na bunda um belo tapa mesmo sem saber o que era. Doeu. Aprendeu a primeira lição. Uns homens, que num primeiro momento pareciam todos iguais o reviravam todo e passavam uma coisa macia e áspera ao mesmo tempo pelo seu corpo. Levaram-no até uma mulher que chorava às bicas, então pensou "Devem ter feito aquilo que fizeram comigo com ela também". Ouviu uma voz dizendo "Olha a mamãe". Já tinha escutado algo parecido durante alguns meses antes de se mudar. A "mamãe" disse "Que lindo é o meu bebê!" Ouviu sua primeira mentira. Era primeiro de abril.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Era Ela

Era um dia ruim. Acordou como se não tivesse dormido. Mas se consolou por crer que o dia anterior havia sido pior. Não conseguia tirar da mente certos pensamentos carregados o suficiente para encher seu coração de angústia. Saiu de casa com a certeza de que nada o desviaria do caminho torturador de um dia cheio de tédio e da escassez de bom humor. Direcionava os olhos para todos os cantos e pessoas. Imaginava se eram felizes. Mas os semblantes eram pálidos demais para que pudesse tirar qualquer conclusão. Não conseguia parar de repetir em pensamento o que sempre sonhou dizer. E percebeu que tudo o que sonhara dizer, já foi dito. E sua espinha gelava quando relembrava tais fatos, e usava o auto flagelo emocional por entender que quando disse não disse da forma mais correta, ou emocionante. Passou o dia todo refletindo, sobre possíveis desfechos. Trágicos, felizes, felizes pra caralho. Mas é complicado deixar a felicidade ganhar, não é? Os trágicos, por mais que fossem minoria, causavam maior estrago. Ao voltar para casa, um certo vazio o tomou. Atacou diretamente a mente e o coração. Desesperou-se como se estivesse com câimbras na água, naquele lugar do mar onde já não dá pé. Queria beijá-la ali, naquela hora. Mas ela não estava. Não se sabe onde ela estava. "Não importa" dizia ele, "Só preciso beijá-la". Tentou ligar seu pensamento ao dela. O sinal estava ocupado. Chegou em casa com a agonia de ter que encontrar alguém, qualquer alguém. Queria ficar só. E deu uma puta sorte. Ao passar a chave e abrir a porta, encontrou sua maior companheira, a solidão. Ganhou um beijo doce de boas vindas que o fez lacrimejar. Despiu-se. Peça por peça. Pegou o violão e acariciou as cordas sem vibrá-las. Um carinho mudo. Até que tocou. A mesma música umas vinte e cinco vezes. A canção era sua. Não estava pronta, mas ele já a adorava. A cada nova interpretação, rimas, melodias e ritmos trocavam de lugar em sua memória. Cada vez que tocava, uma nova música surgia, mas para ele, era sempre a mesma pois dizia somente uma coisa. Cansou de pressionar os antigos calos contra as cordas de aço. Sentiu-se sozinho demais e resolveu ligar a TV para ver se algum personagem poderia trocar meia duzia de palavras com ele. Lembrou do uísque que tinha guardado e deu o primeiro sorriso do dia. Caminhou até seu quarto com o copo cheio do líquido de cor maltada e aroma de madeira. O primeiro gole foi mais quente do que imaginava, mas mesmo assim gostou. Sentiu o destilado descer pelo corpo, esquentando-o inteiro num prazer solitário e reconfortante. Colocou Ela é Carioca na vitrola. Chamou a solidão para dançar, e ela prontamente aceitou. Os passos arrastados no cubículo do seu quarto o faziam desejar que Ela fosse realmente carioca, só para fingir que foi ele quem a escreveu. O acaso não o deixou se passar por Jobim. Mas sua musa com certeza se passaria por carioca. De alguma forma a canção se foi e restou o silêncio e o copo pela metade ainda. Lembrou de Tatuagem, de Chico. A música tocou sem parar até que o uísque se fosse por inteiro. Ele bailava com a solidão. Via em sua sombra uma beleza sublime que o convenceu de que deveria pintá-la num quandro em formas geométricas negras. Era só torpor. Era a bailarina que se alucina. Era a cicatriz risonha e corrosiva. Era a saudade Dela.

domingo, 12 de setembro de 2010

Blasé

"Você é tão blasé!" disse ela ao descer do carro soltando o El Niño pelas ventas. Carlos não sabia exatamente o motivo de tanta irritação de sua companheira, não sabia sequer o que significava ser um cara blasé. Enquanto refletia sobre as possibilidades que, julgava terem algo a ver com o ataque histérico de Julia, ele viu do outro lado um senhor que já passeava pelos longínquos territórios da sexagenariedade. Carlos saiu do carro e foi ao encontro do velho homem, que sentado nas escadas que antecediam a porta principal de uma casa - provavelmente de sua posse - tranquilamente girando entre os dedos um caule seco de alguma flor do jardim que rodeava o espaço entre o meio fio e a porta. "Boa noite" cumprimentou Carlos estendendo a mão. "Boa noite meu filho" respondeu cordialmente o velho homem atendendo ao gesto. "Posso me sentar com o senhor? Ah perdão, me chamo Carlos por sinal". O velho homem balançou a cabeça, não se sabe se positivamente, pois não foi um movimento muito nítido, e então disse "Minha graça é Franz. E pode sentar sim, fique a vontade, mas não lhe garanto conforto, afinal não costumo receber visitas do lado de fora de minha casa." Carlos sorriu e sentou-se. Olhou para a casa de Julia e viu a janela de seu quarto acesa. Apontou para a janela e disse "Minha garota mora nesta casa, e aquela luz vem do seu quarto". Franz levantou o olhar para conseguir ver para onde o jovem apontava e perguntou "Por que então você não está lá, com ela?". Carlos respondeu "Na verdade não sei. Mas gostaria que o senhor pudesse me esclarecer algumas coisas. Não entendo as mulheres! Não adiantaria ser perfeito, elas não ficariam satisfeitas nem assim". Seu Franz riu alto de forma que sua ligeira gargalhada chegasse a ecoar pela rua deserta ajudada pelo fato de já ser tarde da noite. Presenteou Carlos com dois tapinhas no joelho e disse "Você acha sinceramente que estou sentado aqui, nas escadas do meu jardim às onze da noite, porque quero tomar um ventinho? Não meu jovem, não é por isso. Antes o fosse. Na atual conjuntura, estou começando a achar que ficar do lado de fora é até melhor. Elas (as mulheres) são assim mesmo, são uma sala lotada de gás onde a mínima faísca pode causar resultados catastróficos. Não adianta tentar entendê-las, não adianta tentar consertá-las, a vida as fez assim". Carlos olhou novamente para a janela de Julia e viu a luz se apagar. Voltou a atenção para Seu Franz e indagou "Pois é, tentar entender as mulheres é uma tarefa impossível. Mas eu queria entender pelo menos os xingamentos que elas utilizam. Hoje mesmo é ela (a Julia) me chamou de blasé! Que raios isso siginifica?" Franz levantou-se, descansou sua mão no ombro esquerdo de Carlos e disse "Quem liga? Elas leem tudo isso em alguma revista. O xingamento muda, porque a revista muda com o tempo, mas no final o recado é sempre o mesmo. Vai se acostumando, porque agora elas têm a internet, meu filho".        

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Só mais uma história

O ônibus cheio deixa melindrada a jovem garota de vestido amarelo e rosto tímido. Ela carrega consigo um mala de viagem média, talvez com roupa suficiente para uma semana. Está só, e talvez por isso deixe transparecer um certo ar de espanto. Há pessoas estranhas para ela naquele lugar, não está confortável, quer chegar logo em seu destino. No bolso está um bilhete, manuscrito pela mãe e que lhe desejava boa sorte. Um a um os passageiros foram descendo em seus respectivos pontos, e a cada descida a jovem garota de vestido amarelo sentia-se mais aliviada, como se a solidão fosse sua melhor companhia. Talvez fosse, por enquanto.

Uma mulher de óculos escuros espera a garota na porta de um cinema no centro da cidade, tomando um refrigerante e observando os cartazes dos filmes. Ela de costas pra rua, ouviu o som de um ônibus freando e virou-se rapidamente como se já soubesse que a garota estava nele. Descendo os degraus do coletivo, a garota sorriu para a mulher de óculos escuros e chegando até ela a abraçou com muito carinho. "Como vai doutora?" disse a mulher dos óculos escuros. "Estou bem Clarice, e você como está? É muito bom te ver de novo." respondeu a garota de vestido amarelo. Clarice convidou a doutora, que se chamava Gabriela, para entrar no cinema. Gabriela estranhou e perguntou se não podia descansar primeiro, já que havia feito uma longa viagem. Clarice disse que era importante e que não tomaria muito seu tempo. As duas entraram no cinema que estava vazio, sentaram em poltronas separadas por duas ou três fileiras, apoiaram seus pés nos encostos das cadeiras e começaram a gargalhar. Eram velhas amigas, desde sempre. Gabriela disse "Acho que ficou bom!". Clarice respondeu que sim, que adorava quando Gabriela interpretava a doutora, "Você fica séria, se eu não te conhecesse te comprava".

Eram atrizes e viam na vida uma imensidão de histórias. Pegar um ônibus com uma mala vazia e fingir que estavam com saudades uma da outra após um falso reencontro, fazia com que acreditassem realmente estar sentindo o que interpretavam e esse era o passatempo das duas. E a vida prova que Gabriela e Clarice estão certas, que tudo é um longuíssima metragem onde quem escolhe o gênero são os próprios protagonistas.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Pois é, o frio existe.

Sua mãe dizia: "Se agasalhe meu filho". Mas ele nunca acreditou no frio. Assim como não acreditava na solidão. Era sua primeira noite na nova casa. Arejada, aconchegante e acolhedora, tinha tudo para ser seu canto preferido do mundo. Como casa foi usado anteriormente de forma figurativa, convém esclarecer que se trata de um apartamento. Aliás com uma bela vista da avenida Ipiranga. Sua autoestima tranquilizava seus nervos e iludia seu corpo de que ele estava totalmente preparado para enfrentar o mundo.

Ainda com o apartamento sofrendo com as tralhas da mudança e suas roupas aguentando sem claustrofobia o confinamento da mala, resolveu descer e reconhecer a região. Sua nova vizinhança. Era como se estivesse marcando território. Caminhando com as mãos no bolso, sentiu um cheiro delicioso de café. Apenas volveu a cabeça para a direita e viu uma simpática casinha de moldes antiquados (digo isso sem nenhuma intenção pejorativa). A porta era de madeira e a janela também. Tinha uma cor rosada, certamente se as mulheres a vissem inventariam um sobrenome muito criativo para ela. Algo como rosa framboesa. Enfim, isso não vem ao caso. Curioso, mesmo sem saber porque, resolveu ir até a casa e bater à porta. Parou em frente, serrou o punho e deu três toques rápidos na porta de cedro. A porta se abriu e revelou uma senhora, de por volta setenta anos.

_Olá. Boa tarde senhora.
_Boa tarde meu filho.
_Tudo bem?
_Tudo bem e com você?
_Tô bem também. É...Qual o seu nome?
_Benedita, mas todo mundo me chama de Dona Dita.
_Legal. O meu nome é...
_Julio?
_Como a senhora sabe?!
_Está na sua corrente.
_Ah! É verdade.
_Posso te ajudar em alguma coisa?
_É que eu acabei de me mudar para cá e estava precisando de um pouco de...
_Açucar?
_Não, não é isso. Talvez um café.
_Isso eu tenho e é dos melhores viu meu filho!
_Posso entrar?
_Mas eu não te conheço! Sou apenas uma senhora indefesa e se você for, sei lá, um ladrão?
_Se eu fosse um, não estaria conversando a todo esse tempo, concorda?
_É verdade, né? Então tá, entre meu filho.
_Com licença.
_Toda. Você gosta de biscoitos?
_Adoro!

Julio não acreditava, mas em sua primeira noite no mundo, ele foi se agasalhar do frio da solidão.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Quatro e Cinco

São quatro horas e cinco minutos de um dia amargo quando olhou no relógio. Um dia que deixou o reflexo do espelho um pouco mais feio, mais gordo, apesar de seus setenta quilos distribuidos em um metro e setenta e sete de um corpo esguio e mal tratado pelo uso excessivo de álcool e pela má alimentação estimulada pela vida agitada dos dias atuais. Nada que se compare a uma aparência enferma, mas também não se via muito de vitalidade naquele sujeito. Ele olhou para o relógio e constatou que o ônibus já deveria ter passado. Não que ele fosse apanhá-lo, mas tornou-o referência para se lembrar de que já era em tempo de se mandar para casa. Constatando o atraso do coletivo resolveu iniciar a caminhada rumo ao aconchego e doçura de seu lar. Levantou-se do banco chumbado rente ao balcão do botequim onde estava calmamente saboreando seu coquetel predileto. Retirou do bolso do paletó uma velha carteira. Abriu-a para pegar o dinheiro que pagaria sua consumação e antes que o fizesse, se espantou. Algo parecia prender seu olhar à carteira aberta. Era um retrato. Um pequeno retrato, ainda em preto e branco, onde estava ele e sua esposa sentados num cais abandonado, que ele nem se lembrava onde ficava. Pareciam felizes numa intensidade impossível de crer para quem os conhecesse hoje em dia. A foto havia completado mais de vinte anos, assim como o seu casamento. Lacrimejando sorriu. Viu que, na foto, ele estava vestindo um chapéu, daqueles parecidos com os que os capos da máfia italiana usavam. Lembrou que ela adorava quando ele estava de chapéu. Dizia rindo: "Até parece um homem sério! Mas ainda bem que não é."

Após um par de minutos olhando pra foto sem desviar o foco, se deu conta que tinha que ir. Tirou o dinheiro rapidamente, pagou o balconista pela bebida e saiu a passos apressados pela calçada. Andando naquele ritmo quase-correndo e deixando escapar risos e breves gargalhadas foi virando esquinas, atravessando praças, cumprimentando desconhecidos e acariciando os cães que passavam pelo seu caminho. Acelerava os passos até perceber que já corria, feito um menino atrás de um pipa. Corria, corria. Até parar repentina e bruscamente em frente a uma loja. Uma loja de chapéus. Parou um instante admirando a vitrine, respirou fundo para retomar o fôlego, se ajeitou e entrou. "Boa tarde. Em que posso ajudá-lo?" "Boa tarde! Eu quero um chapéu. Um bem bonito, meio estilo anos trinta, Al Capone, sabe?" "Sim, senhor. Venha cá vou lhe mostrar alguns modelos." Se deliciou experimentando dezenas de modelos de chapéus. Se olhando no espelho já não sentia o excesso de feiura e gordura adquiridos naquele dia. Esbanjando sorrisos, finalmente escolheu seu preferido. "O senhor até parece um ator, daqueles de teatro." Elogiou a vendedora. E ele ainda se admirando no espelho respondeu: "O que parece, às vezes é. Vou levar este aqui!" Saiu da loja vibrante, parecia que tinha acertado os preciosos números da loteria federal. A loja já não era tão longe de sua casa como o boteco onde estava. Em dez minutos já estava em frente ao portão de casa. Inquieto, sentia que estava faltando alguma coisa. "Flores!", pensou. Num pequeno jardim entre o portão que dava para a rua e a porta da casa ele encontrou duas rosas, lindas e vermelhas. Arrancou apenas uma, pois ficou com dó de deixar o jardim solitário. Com o chapéu na cabeça e a rosa na mão esquerda, que posicionou às costas para que ninguém que o visse de frente conseguisse saber o que segurava, entrou em casa. Disse: "Querida, você está aí" Ela não estava na sala, o primeiro cômodo que se via ao entrar. Ele também não ouviu resposta. Se dirigiu até o quarto e quando abriu a porta viu na cama duas malas feitas e o guarda-roupa com as portas do lado dela abertas e completamente vazio. Mesmo não sabendo o que estava acontecendo, sentiu um aperto grande no coração. Ouviu a descarga ser acionada no banheiro, logo após do barulho do jorrar da torneira ouviu a porta se abrindo. Era ela. Estava toda bem vestida e ao vê-lo pareceu surpresa de encontrá-lo tão cedo em casa. "O que você está fazendo aqui a essa hora?" "Como assim meu amor? É o horário que costumo chegar." "Está maluco?! Ainda são quatro e cinco." "Quatro e cinco?? Mas quando...eu.." Sem completar a frase, olhou no relógio e realmente os ponteiros ainda marcavam quatro horas e cinco minutos. Estava quebrado. "O que são essas malas querida?" "São o fim do nós. Estou indo embora, já não temos nada há anos." Ele sem acreditar no que ouvira, soltou os braços e os dedos, deixando a rosa cair no chão. "Vai embora? Pensei que me amava" "E eu pensei que você fosse um homem sério." Sem dizer mais uma palavra sequer, ele sentou na cama, tirou o chapéu o segurando com as duas mãos ao colo e chorou silenciosamente com a cabeça baixa, enquanto ela passava feito um vulto por ele pra nunca mais voltar.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Existem maneiras diferentes de fazer muitas coisas

Buzinas, pneus cantando e denunciando o atraso na freada, carros vindo de todos os pontos cardeais. Palavras chulas e gestos nem um pouco amistosos. Esse é o meu dia, essa é a minha vida. Sabe-se que a vida de um guarda de trânsito não é fácil. Não é para qualquer um ficar com aquele apito na boca e ser justo o bastante para não irritar pedestres, motoristas, motoqueiros e velhinhas. Certamente você irá se perguntar: Velhinhas? É! Velhinhas! E lhes conto uma história que explica o porquê.

Numa tarde qualquer, quando já estava exausto, louco para ir para casa e prestes a dar minha última apitada, já que o semáforo já havia sido consertado, vi uma velha senhora na calçada. Seu rosto simpático e a aparente idade avançada me fizeram querer ajudá-la. Resolvi então orientar os automóveis a parar, assim a doce velhinha atravessaria a rua sem maiores problemas. Assim que todos pararam chamei com um gesto a senhora e me virei para o outro lado da calçada para verificar se havia mais alguém a atravessar. Quando olhei novamente a velhinha tinha caminhado apenas até o primeiro retângulo da faixa de pedestres. Gritei: "Venha senhora! Os carros querem passar!" E ela não se mexeu. Pior. Ainda tirou um livreto da bolsa e começou a ler. Os motoristas já irritados começaram a onda insuportável de buzinas e a velhinha nem aí. Corri até ela e disse: "A senhora tem que atravessar rapidamente, senão terei que liberar os carros". Ela tranquilamente respondeu sorrindo com sua dentadura amarelada: "Só queria saber como é ser uma mulher de parar o trânsito".

sábado, 22 de maio de 2010

Um dia e uma noite

Amanheceu, acordou, levantou, comeu.
Lavou-se, vestiu-se, maquiou-se, saiu.
Dirigiu, chegou, trabalhou, telefonou.
Cansou, ligou, combinou, partiu.

Encontrou, cumprimentou, sentou-se, pediu.
Conversaram, beberam, riram, jantaram.
Gargalharam, entreolharam, envergonharam-se, se tocaram.
Se aproximaram, se declararam, se encantaram, se beijaram.

Amanheceu, acordou, procurou, se decepcionou.
Levantou, refletiu, se arrependeu, chorou.
Não foi amada, mas amou.

domingo, 25 de abril de 2010

Conto de Dois

A cidade parecia mais agitada do que de costume. O café diário na padaria de frente à praça estava com gosto diferente, talvez mais amargo. Olhou no relógio e já eram dez da manhã, mas não parecia. O céu estava nublado, mas não a ponto de temer a chuva. A temperatura amena permitia roupas leves, uma camisa de mangas curtas e jeans, pra variar. Sua capacidade de concentração não estava em seus melhores dias. Ele não prestou atenção ao valor a ser pago ao caixa da padaria e mesmo que tivesse olhado para o aparelho televisor a maior parte do tempo em que esteve ali, não conseguiu traduzir nenhuma palavra para o consciente. Era um dia estranho. O que não quer dizer bom ou ruim, apenas estranho.

Sua agitação casual não era por acaso. Um dia importante para ela. Tinha se empolgado com a maquiagem e na escolha das roupas, só esquecera do tempo. Quando se deu por si estava no limite de seu horário de saída. Apressada se lançou à rua como se tivesse que tirar seu amado pai da forca. Ignorou o céu nublado e largou de mão seu guarda-chuva que estava no sofá da sala. A pressa fazia com que o relógio andasse mais rápido e o mundo mais lento. Não adiantava tentar não pensar no seu inevitável atraso. Elaborava histórias e situações tão convincentes para usar como desculpa que logo às descartava por achar que eram perfeitas demais. Enquanto era chacoalhada pelo ônibus, batia um certo desespero depressivo que a deixou triste. E uma lágrima caiu marcando seu rosto com um traço negro.

Ao sair da padaria, abriu os braços para o mundo e sorriu comemorando a estranheza do dia. Viu o céu cinza, o asfalto cinza, as pessoas cinzas e viu a praça. A praça era verde e foi o que o encantou. Esperou até o semáforo lhe permitir passagem e atravessou a rua a passos largos até chegar à outra calçada, onde estava o verde. Em meio a um caos já considerado comum, percebeu que aquele talvez fosse o seu refúgio momentâneo. Sentou-se num banquinho de concreto, cruzou as pernas e colocou seus braços abertos apoiados no encosto. Assistia tudo o que se passava perante os seus olhos como se estivesse fora daquele mundo. Perguntou-se o por que estava ali sentado numa praça qualquer, observando coisas que nunca tinha reparado. Não encontrou respostas.

Para coroar sua frustração, o ônibus que estava quebrou ainda distante do seu destino. A linda garota entregou-se ao pranto, como se tudo tivesse acabado naquele dia. Desceu do veículo e sentando na calçada sentiu seu coração apertar, pensando nas conseqüências de não comparecer ao tão importante compromisso.
Enquanto chorava com a cabeça entre os joelhos sentiu uma gota d’água deslizar em suas costas. E depois outra gota, e outra e outra. Estava chovendo e ela não havia levado seu guarda-chuva. Viu do outro lado um rapaz correndo em direção a um coreto que ficava no centro de uma praça. Achou uma boa idéia. Correu para lá também.

No coreto ele ria descontroladamente sem saber porque. De repente a viu correndo em sua direção. Extasiou-se com aquela imagem que parecia uma visão divina. Ela por outro lado estava preocupada em não se ensopar por completo. Subiu a pequena escada e finalmente se abrigou. Respirando fundo para se recompor ela viu o rapaz a olhando fixamente, achou estranho, mas não se importou, desviou o olhar e continuou a amarrar seus longos cabelos. Ele ainda paralisado pelo encantamento que lhe tomou os sentidos viu que a maquiagem borrada denunciava que talvez o dia não tivesse sido bom para ela e disse: “Talvez queira lavar o rosto.” Ela respondeu: “Talvez eu queira lavar a alma.”
O coreto então tornou-se apenas um ponto de encontro para uma dança na chuva.
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A obra Assunto Popular Brasileiro de Diogo Dias foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada