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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Açúcar Demais

A campainha toca e nada faz Fernando pensar que seria melhor atendê-la do que interromper o estranho ritual que pratica todos os dias, para ao fim de um copo vitaminado ter renovada sua perseverança no árduo objetivo de conquistar dois centímetros a mais na protuberância dos braços.

Largou a colher mergulhada num copo de leite, limpou as mãos e o pouco suor da testa com o pano de prato. Pisava duro. Claro. Aprendera a técnica para reforçar a imagem de rato de academia. Pra impor mais respeito apanhou uma banana na penca antes de ir.

Abriu a porta e perguntou para a simpática moça o que aquela câmera fazia ali. A garota, posicionada a frente do camera man, apenas pediu um pouco de açúcar. Que ofensa! "Açúcar? O veneno dos deuses." pensou ele. Retrucou que não tinha o que ela pedira e desconfiado fechou a porta.

Dois meses depois Fernando liga a televisão e vê a moça do açúcar, de biquíni falando algo sobre afinidade. Levantando as sobrancelhas pensou "que coisa". Tomou mais um pouco do shake e foi comprar uma câmera.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Vote nas Meias

Se for pensar pelos critérios da dimensão, é claro que qualquer província torna-se incomparável com um mero cubo mobiliado que carinhosamente chamamos de quarto. Porém o cuidado com as próprias meias aos seis anos de idade pode denotar habilidade – ou falta de – para assuntos de governança.

Nunca votem em mim. Confundo meus pares de meias, dobro sem nenhum resquício de geometria os meus cobertores e perco pecaminosamente as minhas canetas. Ou seja, se não consigo cuidar das minhas próprias miudezas, como seria a minha vida cuidando da sua?

Infelizmente não tivemos, e é provável que nem venhamos a ter, a possibilidade de conhecer as mães dos políticos dos quais disputam, ferozes, a nossa preferência. De certo que perguntaria sobre as meias. Mas principalmente sobre a falta de surra que tanto lhes faz necessária hoje em dia.

Filhos das putas!

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Giba


O topete. O problema é o topete. Não consegue de jeito nenhum ajeitar os fios de cabelo de forma que os deixem no formato e curvatura suficientemente elegantes para o seu próprio agrado. Já são quase duas da tarde e o topete ainda não está legal. Após mais uma olhada no espelho de mão e outro suspiro de descontentamento, o pequeno Gilberto resolveu abstrair e procurar alguma forma de entretenimento. Como costumamos fazer com a dor, para não lembrar dela pedimos cócegas.
Levantou da gorda cadeira revestida de couro, espreguiçou-se e arranjou a gravata. Com o polegar opositor e o indicador abriu uma fresta na persiana e avistou o velho Viaduto do Chá. Viu os plebeus se trombando feito formigas e fez uma carinha de nojo. Só de lembrar da campanha eleitoral quase caiu de náuseas e correu para o álcool em gel.
Essa lembrança lhe deu uma ideia. Seria ótimo proibir o contato com o povo. Ainda mais nessa época da internet.
Apertou a tecla do telefone desinfetado e chamou a secretária.
_Cirlene, você poderia convocar o escrivão, por favor? Tive outra excelente ideia para um projeto de lei. Os vereadores vão adorar!
_Sim senhor, senhor Gilberto.
_Senhor? Olha lá como me chama Cirlene. Nada abaixo de excelentíssimo me agrada.
_Sim senhor, senhor excelentíssimo.
_Puta merda Cirlene. É “sim, excelentíssimo Gilberto”.
_Sim senhor.
_Ah vai se fuder! Você está proibida de ser minha secretária.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Xeque


Descobriram durante uma maliciosa conversa de bar que a vida é cíclica. Uma velha novidade, martelada insistentemente pelos pioneiros dessa descoberta. Contudo, só fica verdadeiramente esclarecido sobre o tema, quem sente cada fim e começo e começo e fim. Aliás, esse negócio de começar e terminar e depois começar de novo é difícil de pegar. Ninguém vira especialista de tão principal matéria. A explicação é simples como dois e dois são quatro. A vida é cíclica. E se é assim, tudo muda. O jogo se alterna. Os peões viram bispos. E as rainhas, reis. Vai-se arriscando nas estratégias, elaborando possibilidades. Ao sabor das próprias conjeturas. Se joga com intensidade vital até que de uma hora para outra o xeque se apresenta. Por nossa vontade ou não. Apesar de saber que o fim é certo, ficamos sobressaltados por um certo receio subconsciente de um novo começo. Fazer o quê se é cíclica a vida? Traz mais uma Valdir.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Frio na Barriga


No balanço quando te empurraram um pouco mais forte ou em uma ingrime descida em ponto morto. Geralmente é assim que nos acomete o primeiro frio na barriga. Dá vontade de chorar, mas um sorriso também desponta. “Que coisa é essa?” a gente se pergunta. Sensação estranha, gostosa e ruim. De querer de novo e de nunca mais. É o nosso paladar descobrindo o gosto de estar à deriva. Sem saber se é medo ou excitação. Ambos, talvez. Com o tempo, por capricho do mistério, o frio na barriga vai mudando o seu rosto. Se disfarça para nunca cair em desuso. Vira olhares, pegar na mão. Vira sim e vira não. Depois se traveste de amor. E quando de mal humor, de fim. Assim a vida vai, com o frio na barriga e suas traquinagens que nos temperam com sabor agridoce, só de sacanagem. Mas não se engane. Ele é o mesmo de sempre. Por mais que se fantasie, o frio na barriga continua sendo só a gente voando mais alto no balanço.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulheres


Adoro quando vocês tão delicadas me colocam no lugar. Me fazem entender que qualquer suposta pseudossuperioridade masculina é anulada por um simples ar mais tristonho que habilmente usam para conseguir o que bem quiserem. Eu me orgulho quando vocês estão por cima – e me xingam nesse exato momento por usar essa expressão ambígua, machista e de mal gosto – e fazem de nós meros instrumentos. Eu quero é ser lembrado como um súdito, que obediente acode suas rainhas quando elas se permitem chorar. Desejo nunca esquecer os seus gestos, ora sutis, ora fatais, porém sempre resguardando as unhas que acabaram de fazer. Vejo graça, no melhor entendimento da palavra, quando vocês se pintam com esmero e concentração achando que ficarão mais bonitas, mas não percebem que mesmo ao acordar vocês são tudo o que queremos ver. Eu torço para que enfim o mundo seja de vocês. Assim realizarei um velho sonho. Ser apenas um súdito.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Acordem barbados!


Sei que não tenho nada a ver com isso - e nem venha tentar me convencer de que tenho. Mas é que fiquei muito encabulado com essa história toda. Analisemos o cenário e seus personagens. O local sacrossanto do livre pensamento é ferido pela presença de autoridades odiadas pelo futuro da nação, mas que dias antes tiveram seus serviços solicitados de joelhos pelo senhor reitor, acatando reivindicação dos frequentadores do ambiente. Frequentadores estes que tinham razão em querer não levar uma bala na cabeça ou ser uma vítima do ainda não inventado maníaco da Cidade Universitária. A coisa estava tão tensa que a rapaziada resolveu dar uma relaxada. Coisa pouca. Opa! Peraí! Cadê a minha liberdade agora? Apagaram com o coturno.

O futuro da nação não gostou nada disso, e viu nesse factoide a perfeita oportunidade de seguir as tendências mundiais. Como assim, somos jovens em um país desigual e não lutamos por nada?! Que absurdo, que injúria! Brigaremos então pelos alunos repreendidos pelos malévolos homens da lei. Falando em lei, gostaria de lembrar que que ela existe. Longe do pensamento fundamentalista, acho saudável quebrar regras e até leis de vez em quando. Eu mesmo o faço. Claro que não contarei quando e como. Sabe por quê? Simples. Por causa das consequências. Faço errado e sei disso. Não tento convencer o mundo do contrário.

Moralismos à parte, ética e bom senso à parte, a bula do simancol à parte, o que está mesmo faltando ao futuro da nação é uma boa dose de realidade. Matéria que deveria ser incluída na Fuvest do ano que surge. Quem sabe assim as caras metidas em Foucault e Marx olhem para o mundo aqui fora e possam finalmente exercer a intelectualidade com o mínimo de discernimento e um pouco menos de paixonite aguda pelo suposto poder de poder qualquer coisa. Quem mais sai perdendo com essa zona toda é o meu, o seu e o futuro deles; o futuro da porra da nação.


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Melhor Assim

Viver é simples e involuntário. Respirar é a prova disso. Dominar as ações é praticamente impossível, teoricamente utópico. Os desejos corroem as entranhas até que sejam saciados, expurgados do corpo e da alma como o diabo na exorcismação. E isso tira toda e qualquer possibilidade de domínio sobre a vida e seus elementos.

Milênios nos desafiam e riem de nós, soltam gargalhadas titânicas. Tudo porque, ingênuos, não temos ínfima noção do que estamos fazendo neste mundo. É desaconselhável refletir em demasia sobre a questão. A história prova que muitos tentaram, mas quedaram diante da loucura. Se fosse o destino de tal mistério ser compreendido, já o teríamos feito. É disso que debocham os milênios.

Tentativas mais coerentes e saudáveis são as que procuram decodificar pequeninos problemas. Mínimos diante da grandeza da humanidade. Problemas de amor, de necessidade, de egoísmo, de ódio, de amor. Pois cada um de nós tem situações suficientes para gastar seus dias. Prefiro não descobrir a que vim, para não saber que fracassei.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

De Levante


Parece uma grande esteira automática rolante cercada de neblina e comigo a tiracolo. Acelerar o passo me desequilibra. Contê-lo não funciona. Vivo ao sabor da esteira. Ela me leva, eu não reclamo. Assim vamos, juntos. Eu e a esteira. Nunca perguntei aonde ela dá. Nem sei se minha companheira tem um final. Confio nela, mas não deveria. Afinal, para o que ela me leva?

Sem poder ver alguns metros a frente, achei de bom gosto abandonar a razão. Pensar é só um passatempo. Sentir é uma condenação. Ela, a esteira, decidiu assim. Ela me leva, eu não questiono. O que mais poderia ser assim tão intenso? Se eu é que levasse a esteira? Impossível. Pouco atraente inclusive. Cairia no erro mais primário: confiar em minhas convicções.

Estar convicto é deleite passageiro. Como tudo o que é bom e ruim. Permanente mesmo é a esteira. Que nem é boa e nem ruim. Ela é o que quero que ela seja. Até porque nunca pensei em que raios ela é de verdade.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Afã

Fanatismo é uma palavra assustadora. Sinto algo parecido com claustrofobia - não sei dizer exatamente o que é - quando ouço ou leio esse verbete. Fico ainda mais aterrorizado com o apócope "fã". Ô coisinha minúscula e destruidora!

Quando alguém me diz que é fã de alguém, me preparo para uma tempestade passional de elogios e frases carinhosas. Nada de errado nisso. A não ser pelo fato de que o agraciado pelos afagos verbais não tem a mínima noção sequer de quais são as iniciais do seu admirador. As partes nunca se encontraram, e possivelmente nunca se encontrarão. Mas por alguns estímulos de ordem midiática, surge uma paixão unilateral. E o fã, coitado, prende-se na perfeição do ídolo. Quer ser igual. "...ou parecido. Já serve...".

O problema é que ídolos também são fãs. Assim o efeito dominó é desencadeado, encadeando cada vez mais as pessoas. Um é fã de outro que é ídolo de um. Mas sem drama eu compreendo tudo. Sejamos fãs de qualquer um, menos de nós mesmos. Porque de autogênios o mundo já está farto. Como dizia meu ídolo Fernando Pessoa: "...E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não podem haver tantos", não é verdade?


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Eu e Meus Poderes

Céus, como desejei ter poderes mágicos. Caçoar dos alquimistas por nunca conseguirem o que eu conseguiria. Transformar, teletransportar, desaparecer. Era tudo o que eu queria. Contudo, entendo as razões de não nos serem dignas tais facetas. Imagine só o que não fariam os cleptomaníacos, os tarados e os depressivos? Talvez não existisse mais a posse das coisas, nem castidade e muito menos depressivos. Mesmo eu não sei confiar-lhes como lidaria com meus instintos anti-éticos e imorais. Pense bem. Que possibilidades!

Supondo que houvesse uma regulamentação para o uso dos poderes, eu já abdicaria de tê-los. Fujo de regras. Além do quê, o bacana de se ter poderes é abusar. Exibir-se para milhares de olhos crédulos e ouvir ruídos onomatopéicos ao ver-me transformar, de repente, água em cerveja. Seria lindo, épico. E uma baita festa. Transformaria as figuras indesejadas em artigos decorativos, estátuas de cera, balas de canhão do século passado. Ou simplesmente me teletransportaria para outra festa, em algum lugar quente abaixo da Linha do Equador.  

Por essas e outras é que nós, os homens, não temos poderes. Temos deveres.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Nada Faz Sentido

Entenda como quiser a aquilo que não faz sentido. Procurar sentido demora e desgasta. E nem ao menos o consolo de se poder achá-lo se tem. É comum que as coisas saiam de controle, que elas saltem serelepes para longe do alcance dos braços, para onde a voz não chega, livres de qualquer repreensão. Conformei-me com isso. E não o fiz agora. Há tempos entendi que sou mero instrumento. De cordas, de percussão, de sopro, de tudo. E o que sai é música que não preserva estilo. Da melancolia do tango à alegria desenfreada de um samba de carnaval. Depende se estou de cordas ou de sopro ou de percussão. E quem me toca? Sei que vibro e ressoo o que a pauta ao meu redor conduz. Nas mais diferentes claves, nas mais ricas melodias. Vivo as pausas. Vivo as notas. Semibreves. Não quero fazer sentido. Desejo apenas ecoar suavemente em seus ouvidos.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Garçom

Garçom, por favor. Pode me trazer um desse aqui. É. Isso, o quatrocentos e sessenta e dois. No pão francês. Não me leve a mal. É que aquele outro pão não combina muito. Acho que vou tomar uma coca. Sem limão. Tenho gastrite. Eu fico louco com isso, mas o que eu posso fazer? A gente dá defeito também, né? Pensando bem, acho que não quero mais a coca. Humm. Esse suco de cupuaçu é bom? Nunca experimentei. Na verdade não fujo muito das convenções. Mas eu sempre quis experimentar esse aí de cupuaçu. É melhor do que o de açaí? É? Interessante. Estou curioso, mas tenho medo de errar. Se eu não gostar, é pecado jogar tudo fora depois, concorda? Ah, vai o de limão mesmo. O problema é que eu tenho gastrite. É melhor evitar os cítricos. Beterraba com laranja tem? É mesmo! Laranja também é cítrico. Que derrapada a minha! Me traz um de morango então. Traz o barbecue também. Não tem? Que chato hein, fala pro teu chefe adquirir uns barbecue aí meu filho. Senão espanta a clientela. Que cara é essa? A minha mãe o quê? Entendi, pensei que tivesse ouvido outra coisa. 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Dia de Todo Mundo

Outro dia aí me disseram que era dia do amigo. Acho que é o único dia de alguma coisa em que todos somos os homenageados. Se o indivíduo não tem capacidade para alimentar uma amizade com outro ser humano, recorre à fauna. Alguns dizem até que bichanos e vira-latas cumprem melhor a função do que os homens - do que as mulheres não há dúvida.

Como senti-me congratulado por acreditar ser um bom amigo resolvi me presentear. Comprei um presente que eu odiaria em qualquer circunstância, mandei embrulhar com qualquer papel e escrevi umas palavras avulsas num cartão horrendo estampado com um cogumelo com cabeça de morango. A intenção era simular a aquisição de uma pequena lembrança para um amigo querido. Percebi então que eu era um grandessíssimo  filho da puta.

Descobri também como são amigos meus amigos. Porque entendem que a filhadaputagem é um fator inerente à amizade. A amizade permite errar (sem excessos, pessoal), o amor não. Portanto vai aqui um pedido de desculpas por agir de maneira tão inconsequente com vocês, amigos.

Mas também, quer saber? Vocês são iguaizinhos a mim. Então, foda-se, vamos tomar uma gelada.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A Difícil Jornada Do Acéfalo Por Opção

É odioso começar qualquer texto com um ditado popular. Mas perdoem-me, é necessário. Portanto aí vai. "O pior cego é o que não quer ver". Bonito isso. Profundamente tocante e dolorosamente verídico. Me faz pensar em tantas coisas que nem consigo organizá-las a fim de deitá-las em letras aqui. Mas uma dessas coisas se destaca no meio das minhas divagações. Uma paródia da anedota citada. Algo tão original quanto "O pior cego é o que não quer pensar", ou então, "O pior ignorante é o que não quer saber". Enfim decidi que não tentaria perpetuar nenhuma dessas opções. Mas o olho do furacão está exatamente na essência dessas tentativas frustadas de emplacar um novo ditado. Engolindo ferozmente, sem dó, qualquer esperança que ainda reste no ser humano e em suas atitudes - quase todas - questionáveis. E como ser humano que sou (até segunda ordem) tomei a liberdade de questionar meus companheiros de raça. Eu tu nós vós eles. Todos inclusos. Não pense que você é especial, muita gente acha isso, o que o torna comum. Questiono a proeza de abrir mão do raciocínio. Somos bípedes e temos um polegar opositor (oh!), considerados a raça racional. Porém conseguimos optar por não pensar, quando não queremos. Dá preguiça às vezes, eu sei. Ninguém pensa ao responder se quer ou não um pedaço de chocolate, ou quando se está excitado. O problema é não-pensar ao ponto de perder a prática.


Jéurison levanta e faz a barba com o creme que é um Fenômeno. Liga a TV e acredita nela. Evita café porque disseram que faz mal à saúde. Pega a linha 3459 e enfrenta três horas e meia de viagem, quando podia tomar o trem e chegar ao destino gastando metade do tempo. Mas não faz isso porque na época dele o trem era frequentado por arruaceiros e maconheiros. Tropeça num buraco e é atingido por um bueiro voador, xinga o prefeito - só falta o prefeito ouvir, mas isso é um mero detalhe. Ganha mal como jardineiro, até queria ser outra coisa, mas sua mãe diz que é um trabalho honesto. Está certa a velha, mas que ele ganha mal, ah ganha. Planta girassóis no inverno porque o patrão manda, dali a dias quem gira é a lua. Não perguntei a religião, mas é fiel. A vida é dura para Jéurison. Ele tem preguiça de pensar.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Entrelinhas

As entrelinhas são discretas, até demais. Guardam segredos que ouvem direto dos lábios do coração. Ele, o coração, é tímido e só confia nas próprias entrelinhas. E sofre com a discrição alheia porque não consegue sozinho entender o que tentam lhe dizer. Fica acanhado, apertado, acelerado amiúde. Tenta pedir conselho à razão. Coloca empecilhos nas teorias que gostaria muito de acreditar, que procedessem. Tudo por culpa da impossibilidade de decifrar o que as entrelinhas dela escondem sem querer esconder. Um gesto, um desvio de olhar. A fuga dos olhos para qualquer lugar denuncia que há algo que o coração dela sussurrou, baixinho e quente dizendo “ei, é segredo”. Quando na verdade quer mais é que o mundo saiba, que ele saiba. Pra que os corações – dele e dela - possam bater daquele jeito que só se bate quando não há mais entrelinhas trabalhando, quando os olhos assumem o posto e entregam na maior dedoduragem o que as entrelinhas não tinham coragem de contar. Poderia ser mais fácil, mas aí, qual seria a graça? 

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Seja Ideal

Você está terminantemente proibido de sentir qualquer tipo de tristeza, angústia ou ausência de humor. Você é obrigado a sorrir para tudo e todos, todos os dias. É inconcebível que você deixe transparecer qualquer fraqueza. Errar é fatal. Tenha os melhores bens. E o melhores mals também. Tenha tudo. Saia por cima em qualquer situação, mesmo que você esteja errado. Quem liga para a coesão das coisas? O que importa é ser genial. Seja o mais magro, o mais belo. Só não caia na estupidez de pensar, isso te denigre, já que uma vez pensador, não vai conseguir segurar em sua boca certas coisas. Coisas essas que são verdades. E verdades não são para os perfeitos. Perfeição? Sim ela existe. Existe porque as pessoas mentem. Minta! Assim você só diz o que todos querem ouvir. Massageie o ego – próprio e o alheio.  Dispa-se de princípios, estão fora de moda. Seja imediatista e superficial. Aprofundar-se muito é sinônimo de compromisso, não é isso que você quer, não é verdade? Compre muito. Não valorize os sentimentos. Diga eu te amo a qualquer um. Isso já não significa nada mesmo. Gaste água, queime qualquer coisa. Brinque com as almas, chame-as para dançar. Faça o que quiser e faça agora. Não é necessário preocupar-se com as conseqüências. Afinal, você será esquecido de qualquer maneira.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Eu Xingaria o Papa

Eu xingaria o papa. Puta cara folgado! Sentado o dia inteiro em alguma cadeira com arabescos coloniais em madeira e almofada de veludo fingindo ser um mensageiro do Divino. Deus deve se envergonhar do papa e de todos que sonham em beijar-lhe a mão enrugada. Observando por entre as nuvens com a sua visão de altíssima definição, uma infinidade de gente ao redor de um senhor que depois de passar uns bons dias enclausurado com outros senhores - e alguns meninos (infame!) - foi eleito por uma fumaça, a Sua Santidade. Olha o absurdo! Se o tal sujeito fosse mesmo um indivíduo sacrossanto teria a honra de ser eleito pelo chefe e não pelos pares.

Mas voltando ao assunto, acho que o “vai tomar no cú” mais encorpado e volumoso que minha boca poderia proferir seria para o papa. Não que eu tenha alguma aversão religiosa. Não! Nada disso. Não sofro de teofobia – aliás, acho essa mania de colocar o sufixo fobia em qualquer frescura é um sintoma de hipocondria coletiva. O problema é com o velho e todos aqueles anciões que passaram a vida inteira internados e acham que podem dizer ao mundo o que ele deve fazer. Mas o papa é, em especial, irritante. Eu até gostava do outro, era um velhinho simpático. Mas esse, não dá. Talvez eu tenha sido influenciado pelo passado nazi dele, mas também ele não faz nada pra mudar isso!

Quer saber? É isso. O papa me irrita e eu gritaria um grande foda-se pra ele. Peço desculpas aos seus fãs mas eu tenho esse direito. O direito de desvergonhar Deus.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Escapou

Tudo fica devidamente sinistro quando alguém diz o que não devia. A reação é espontânea e hilária, claro, quando não trágica. É difícil se conter em certas ocasiões, por isso entendo completamente quando aquela senhora besteira escapa de entre os lábios, chicoteada pela língua afiada como um bisturi. Se parar pra pensar, é um momento de raro desconcerto, onde todos os presentes se encontram no mesmo sentimento, na mesma sensação e, por que não, no mesmo pensamento. Entreolhares nada discretos, limpadas de garganta e posturas sendo corrigidas nas cadeiras denunciam que alguém, ali, disse uma grande merda. Faz parte. Dali a uns minutos tudo volta ao normal e a memória se encarrega de esquecer ou não. Das situações deste tipo de que lembro dou risada, das que não, talvez tenha sido melhor esquecê-las mesmo.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Quando Eu Acordei

Há noites que por muito pouco não me recuso a dormir para não abandonar meus pensamentos ao descuido do descanso. Apesar de saber que é necessário ao corpo que a mente descanse, acho o sono excessivo e, às vezes, desnecessário. Milhares de palavras, pessoas, situações reais e ficcionais, hipóteses, diálogos, fantasias, idéias, sentimentos, tudo, navega entre meus mortais neurônios com tanta avidez e velocidade que chego a temer uma literal explosão cerebral, mesmo que ainda – segundo minha memória – não se tenha registrado nenhum caso parecido.

Sou ansioso por natureza. Em fase de reeducação comportamental. Um processo lento e doloroso. Não acredita? Diga a um ansioso que você tem uma novidade para ele, mas que só pode ser revelada daqui a um mês. Seus sintomas serão comparáveis aos da abstemia. Unhas serão ruídas, cabelos arrancados e palpitações surgirão. Conta-se até casos em que o desespero é tamanho que falta ar ao ansioso. Por isso arrisco horas de sono em favor dos pensamentos. Quero a materialização rápida, instantânea se possível. Uma ideia não pode ser um ideia por muito tempo. Ela tem que surgir, linda e maravilhosa diante dos meus olhos. Claro que vivo numa constante onda de decepção, já que nem todas as ideias podem ser gestadas. É a vida. Uma substitui a outra e eu volto a pensar. É um ciclo infinito e abstrato.

De uns tempos para cá, voltei a sonhar. E fiquei encantado com o que a minha mente é capaz de produzir inconscientemente. Pessoas, palavras, diálogos, fantasias, sentimentos misturados sem o meu pudor, os meus preconceitos e principalmente sem a minha razão. Tudo por não estar acordado. Os sonhos me conquistaram, mesmo não sendo sempre maravilhosos como eu gostaria. Mas tudo bem. A vida também não é do jeito que eu gostaria. Por que os sonhos haveriam de ser? Voltando a pensar descobri que há mais realidade nos sonhos que sonhos na vida. Daí por diante resolvi inverter esse quadro. Acho que estou conseguindo.
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