terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O Primeiro Voo

Se os dias fossem todos como aquele, certamente não os confundiria na memória. Apesar dos poucos e primeiros anos teve uma experiência que lhe deixou pasmado, incrédulo e flutuando. Sentado sobre a grama-capim, debaixo de um pé de jabuticaba, sentia um tédio natural de garoto da cidade. Pai e mãe trocavam novas com a avó dentro do casebre de madeira que cheirava aos anos passados. Era a primeira visita do pequeno rapaz aos aposentos interioranos da família. Seus pensamentos eram indecifráveis porque não dominava o vocábulo. Enquanto seus olhos e mãos se concentravam num brinquedo de plástico poligonal sentiu um rápido zumbido passar muito próximo de uma das orelhas. Pensou ser qualquer coisa que ele aprenderia a nomear somente alguns anos mais tarde. Continuou atento ao brinquedo. Quando um som doce e agudo lhe fez subir os olhos para frente. Era um bichinho pequeno e bicudo. A curiosidade de criança tomou seu pequeno corpo e o fez engatinhar até o bicho. Estendeu as mãos e o bicho subiu. O menino abriu um sorriso lindo e sincero. Sentiu o deleite da confiança. Mas então o bicho voou. Os seus olhos fitaram a trajetória do seu novo amigo, sua boca se abriu e lágrimas se apresentaram. O garoto descobriu pela primeira vez o que era um pássaro voando depois de tê-lo nas mãos. Saudade.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Eterna Adolescência

Quão pequenas são
As pequenas coisas, não?
Tão pequenas
Que não se distanciam do chão.
Dizem-me para vivê-las
Intensa e dementemente
Sequer consigo percebê-las
Mesmo escancaradas em minha frente.
Talvez seja esse o motivo principal
Da minha indecência.
Aludir a minha alma
À eterna adolescência.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Amém


Hoje pela primeira vez sinto que envelheci. Nada grave. Mas sinto. Acordei com um sol quente e muito amarelo sobre a minha cara e uma ligação. E de maneira inédita entendi que alguém lembrou de mim muito cedo. Saber da importância desse ato me esclareceu a minha verdadeira idade.

Passei por algumas coisas que me transformaram. Nem me reconheço mais. E o melhor de tudo é que acho isso incrível. Meus olhos se abriram para pessoas que sempre me deram muito mais do que um simples olá. Que me deram o presente da sua companhia. Mas antes, no auge da minha juventude cegueta, não conseguia dimensionar o papel que elas desempenham na minha linda vida.

Posso dizer que tenho amigos e família. De verdade. Nem sei se deveriam ter nomes diferentes. Os meus amigos são a minha família – é propositalmente ambíguo. Tenho em mim um sentimento de – até agora – dever cumprido pelo simples fato de ser franco, sincero com quem me cerca. E agora, comigo. Já não sei me esconder, nem interpretar. Talvez só no papel.

Tento todos os dias me conscientizar dos meus defeitos, das minhas manias. Pragas que antes não tinha ideia de que continha. Percebi que a minha personalidade é forte, a minha voz é grave e as minhas palavras ásperas. Combinação perfeita para a antipatia. Portanto comecei a me reeducar. Tentar falar menos, mais baixo, com menos certeza.

É um processo longo, contudo prazeroso, para entender que tipo de ser humano eu quero ser. Eu quero ser o melhor sabendo que nunca serei. Assim não deixarei de me incomodar com a minha própria postura, com meus próprios pensamentos. Ai então conseguirei não sossegar até a derradeira hora que sossegarem por mim.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Ela Que Não Sabe (Quer) Realizar

Noites e noites deitando sobre o travesseiro imagens que nunca passam de meras figurações do que poderia ser realidade. Se ainda não o são é por culpa da covardia. Desculpe ser tão rude, mas me fogem eufemismos para essa desqualificação.

Sobre a mesa uns pequenos pedaços de papel colorido, rabiscados com lembretes de tarefas que jamais serão  cumpridas. Só não é tortura porque de alguma forma os papéis a confortam de um jeito mórbido e sombrio. É como uma deixa para qualquer desculpa mal inventada se encaixar perfeitamente na sua consciência covarde.

A cada mês passado aumenta a sensação de que o que deveria ser feito fica gradativa e definitivamente para trás. Acho que ela espera por isso. Espera que a sua mente se esqueça de anotar novas tarefas nos papéis coloridos. Porém com todos os dias nasce um novo desejo. Acumulam-se em montanhas coloridas de celulose, quase tão grandes quanto o medo de realizá-los.

Encontrei-a outro dia passeando. Tinha agarrada ao colo um livro grosso e aparentemente pesado. Assim que a vi acenei e tive como retribuição um lindo sorriso. Nos aproximamos e conversamos. Perguntei o que era o pequeno papel rosa colado ao livro. Respondeu-me serena que estava indo viajar.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Clarisse


Não conheço Clarice. 
Nunca a vi passar.
Algum mistério que a envolve me desperta
Curiosidade ao reverso.
Vontade de conhecê-la fisicamente não tenho.
Gostaria mesmo era de desvendá-la.
O que queria dizer Clarice?
É o que dizem por aí.
Seria mesmo triste assim?
Acreditando e desacreditando no amor.
Clarisse.
Dizem que se parece com uma flor.
Só que desabrocha no inverno.
Para reinar sozinha
Infinita
Na imaginação de todo beija-flor.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Quitéria

Quitéria pare de reclamar! Mas que coisa Quitéria! Já lhe disse que se a comida estiver sem sal, bote. O dia está de gelar as canelas? Agasalhe teus cambitos. Nunca vi quem reclamasse mais que ela. Coitada da Quitéria. Ficava sentada, ouvindo a própria respiração na varanda que dava de frente pra Rua do Cisne. Passava o Zé Ferreiro, o Maltinho e o Milton Jacarandá. Quitéria mandava uma "olá". Mas ninguém se dava ao esforço de retribuir o cumprimento. Como era feia e desajustada a bichinha. De dar dó. Era compreensível que a mulher não calasse a matraca, reclamando de Buda a Maomé.

Mas um dia, que nem belo era, apareceu na vida de Quitéria um moço dos mais corajosos. Galenteava como um princípe aquele ser de rosto castigado pela natureza. Os cromossomos da beleza a abandonaram. Mas os da sorte foram solidários. Quitéria fazia-se de difícil, mas sabia que era aquela a única saída pra se desvirginar no amor. E o moço, além de corajoso, era insistente. Perseverou até o dia que comprou uma flor. Quitéria enfim acreditou, que o seu destino enfim a ajudou. Quando ela finalmente disse sim, o moço teve os olhos abertos, o encanto disperso e um grito soltou: Meu Santo Deus do Céu!

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Que Seja

Que chova
Que molhe
Que fale
Que chore
Que cale

Que esqueça
Que queira
Que peça
Que ouse
Que seja!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Acordem barbados!


Sei que não tenho nada a ver com isso - e nem venha tentar me convencer de que tenho. Mas é que fiquei muito encabulado com essa história toda. Analisemos o cenário e seus personagens. O local sacrossanto do livre pensamento é ferido pela presença de autoridades odiadas pelo futuro da nação, mas que dias antes tiveram seus serviços solicitados de joelhos pelo senhor reitor, acatando reivindicação dos frequentadores do ambiente. Frequentadores estes que tinham razão em querer não levar uma bala na cabeça ou ser uma vítima do ainda não inventado maníaco da Cidade Universitária. A coisa estava tão tensa que a rapaziada resolveu dar uma relaxada. Coisa pouca. Opa! Peraí! Cadê a minha liberdade agora? Apagaram com o coturno.

O futuro da nação não gostou nada disso, e viu nesse factoide a perfeita oportunidade de seguir as tendências mundiais. Como assim, somos jovens em um país desigual e não lutamos por nada?! Que absurdo, que injúria! Brigaremos então pelos alunos repreendidos pelos malévolos homens da lei. Falando em lei, gostaria de lembrar que que ela existe. Longe do pensamento fundamentalista, acho saudável quebrar regras e até leis de vez em quando. Eu mesmo o faço. Claro que não contarei quando e como. Sabe por quê? Simples. Por causa das consequências. Faço errado e sei disso. Não tento convencer o mundo do contrário.

Moralismos à parte, ética e bom senso à parte, a bula do simancol à parte, o que está mesmo faltando ao futuro da nação é uma boa dose de realidade. Matéria que deveria ser incluída na Fuvest do ano que surge. Quem sabe assim as caras metidas em Foucault e Marx olhem para o mundo aqui fora e possam finalmente exercer a intelectualidade com o mínimo de discernimento e um pouco menos de paixonite aguda pelo suposto poder de poder qualquer coisa. Quem mais sai perdendo com essa zona toda é o meu, o seu e o futuro deles; o futuro da porra da nação.


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Melhor Assim

Viver é simples e involuntário. Respirar é a prova disso. Dominar as ações é praticamente impossível, teoricamente utópico. Os desejos corroem as entranhas até que sejam saciados, expurgados do corpo e da alma como o diabo na exorcismação. E isso tira toda e qualquer possibilidade de domínio sobre a vida e seus elementos.

Milênios nos desafiam e riem de nós, soltam gargalhadas titânicas. Tudo porque, ingênuos, não temos ínfima noção do que estamos fazendo neste mundo. É desaconselhável refletir em demasia sobre a questão. A história prova que muitos tentaram, mas quedaram diante da loucura. Se fosse o destino de tal mistério ser compreendido, já o teríamos feito. É disso que debocham os milênios.

Tentativas mais coerentes e saudáveis são as que procuram decodificar pequeninos problemas. Mínimos diante da grandeza da humanidade. Problemas de amor, de necessidade, de egoísmo, de ódio, de amor. Pois cada um de nós tem situações suficientes para gastar seus dias. Prefiro não descobrir a que vim, para não saber que fracassei.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Ode à Amizade

Selo nossa amizade com lágrimas no teu ombro.
Uma maneira infantil, mas sincera ao extremo.
Finalmente me conheceste e eu a ti.
Confio a minha devoção à memoria da sua compreensão.

Entre nós já não há esconderijos, já que de verdade
Me virei ao avesso de forma irrepreensível.
Sou muito além do que digo ser
E posso menos do que julgo poder.

Posso, pelo menos, jurar que não há preço
Argumento ou contexto
Que faça me esquecer do teu gesto.
Está guardado para sempre teu afago
Só o que tenho a dizer é:
Muito obrigado.
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