Se amasse além do que quisesse
Antes que devesse
Quem eu não pudesse
Seria nada mais que apenas
Eu; tentando provar
Que ao contrário do ideal
O amor é rebelde
E apesar de ser como é
Nunca quer acabar mal.
domingo, 22 de abril de 2012
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Frio na Barriga
No balanço quando te
empurraram um pouco mais forte ou em uma ingrime descida em ponto
morto. Geralmente é assim que nos acomete o primeiro frio na
barriga. Dá vontade de chorar, mas um sorriso também desponta. “Que
coisa é essa?” a gente se pergunta. Sensação estranha, gostosa e
ruim. De querer de novo e de nunca mais. É o nosso paladar
descobrindo o gosto de estar à deriva. Sem saber se é medo ou
excitação. Ambos, talvez. Com o tempo, por capricho do mistério, o
frio na barriga vai mudando o seu rosto. Se disfarça para nunca cair
em desuso. Vira olhares, pegar na mão. Vira sim e vira não. Depois
se traveste de amor. E quando de mal humor, de fim. Assim a vida vai,
com o frio na barriga e suas traquinagens que nos temperam com sabor
agridoce, só de sacanagem. Mas não se engane. Ele é o mesmo de
sempre. Por mais que se fantasie, o frio na barriga continua sendo só
a gente voando mais alto no balanço.
quinta-feira, 8 de março de 2012
Mulheres
Adoro quando vocês tão
delicadas me colocam no lugar. Me fazem entender que qualquer suposta
pseudossuperioridade masculina é anulada por um simples ar mais
tristonho que habilmente usam para conseguir o que bem quiserem. Eu
me orgulho quando vocês estão por cima – e me xingam nesse exato
momento por usar essa expressão ambígua, machista e de mal gosto –
e fazem de nós meros instrumentos. Eu quero é ser lembrado como um
súdito, que obediente acode suas rainhas quando elas se permitem
chorar. Desejo nunca esquecer os seus gestos, ora sutis, ora fatais,
porém sempre resguardando as unhas que acabaram de fazer. Vejo
graça, no melhor entendimento da palavra, quando vocês se pintam
com esmero e concentração achando que ficarão mais bonitas, mas
não percebem que mesmo ao acordar vocês são tudo o que queremos
ver. Eu torço para que enfim o mundo seja de vocês. Assim
realizarei um velho sonho. Ser apenas um súdito.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
O Primeiro Voo
Se os dias fossem todos como aquele, certamente não os confundiria na memória. Apesar dos poucos e primeiros anos teve uma experiência que lhe deixou pasmado, incrédulo e flutuando. Sentado sobre a grama-capim, debaixo de um pé de jabuticaba, sentia um tédio natural de garoto da cidade. Pai e mãe trocavam novas com a avó dentro do casebre de madeira que cheirava aos anos passados. Era a primeira visita do pequeno rapaz aos aposentos interioranos da família. Seus pensamentos eram indecifráveis porque não dominava o vocábulo. Enquanto seus olhos e mãos se concentravam num brinquedo de plástico poligonal sentiu um rápido zumbido passar muito próximo de uma das orelhas. Pensou ser qualquer coisa que ele aprenderia a nomear somente alguns anos mais tarde. Continuou atento ao brinquedo. Quando um som doce e agudo lhe fez subir os olhos para frente. Era um bichinho pequeno e bicudo. A curiosidade de criança tomou seu pequeno corpo e o fez engatinhar até o bicho. Estendeu as mãos e o bicho subiu. O menino abriu um sorriso lindo e sincero. Sentiu o deleite da confiança. Mas então o bicho voou. Os seus olhos fitaram a trajetória do seu novo amigo, sua boca se abriu e lágrimas se apresentaram. O garoto descobriu pela primeira vez o que era um pássaro voando depois de tê-lo nas mãos. Saudade.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Eterna Adolescência
Quão pequenas são
As pequenas coisas, não?
Tão pequenas
Que não se distanciam do chão.
Dizem-me para vivê-las
Intensa e dementemente
Sequer consigo percebê-las
Mesmo escancaradas em minha frente.
Talvez seja esse o motivo principal
Da minha indecência.
Aludir a minha alma
À eterna adolescência.
As pequenas coisas, não?
Tão pequenas
Que não se distanciam do chão.
Dizem-me para vivê-las
Intensa e dementemente
Sequer consigo percebê-las
Mesmo escancaradas em minha frente.
Talvez seja esse o motivo principal
Da minha indecência.
Aludir a minha alma
À eterna adolescência.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Amém
Hoje pela primeira vez
sinto que envelheci. Nada grave. Mas sinto. Acordei com um sol quente
e muito amarelo sobre a minha cara e uma ligação. E de maneira
inédita entendi que alguém lembrou de mim muito cedo. Saber da
importância desse ato me esclareceu a minha verdadeira idade.
Passei por algumas
coisas que me transformaram. Nem me reconheço mais. E o melhor de
tudo é que acho isso incrível. Meus olhos se abriram para pessoas
que sempre me deram muito mais do que um simples olá. Que me deram o
presente da sua companhia. Mas antes, no auge da minha juventude
cegueta, não conseguia dimensionar o papel que elas desempenham na
minha linda vida.
Posso dizer que tenho
amigos e família. De verdade. Nem sei se deveriam ter nomes
diferentes. Os meus amigos são a minha família – é
propositalmente ambíguo. Tenho em mim um sentimento de – até
agora – dever cumprido pelo simples fato de ser franco, sincero com
quem me cerca. E agora, comigo. Já não sei me esconder, nem
interpretar. Talvez só no papel.
Tento todos os dias me
conscientizar dos meus defeitos, das minhas manias. Pragas que antes
não tinha ideia de que continha. Percebi que a minha personalidade é
forte, a minha voz é grave e as minhas palavras ásperas. Combinação
perfeita para a antipatia. Portanto comecei a me reeducar. Tentar
falar menos, mais baixo, com menos certeza.
É um processo longo,
contudo prazeroso, para entender que tipo de ser humano eu quero ser.
Eu quero ser o melhor sabendo que nunca serei. Assim não deixarei de
me incomodar com a minha própria postura, com meus próprios
pensamentos. Ai então conseguirei não sossegar até a derradeira
hora que sossegarem por mim.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Ela Que Não Sabe (Quer) Realizar
Noites e noites deitando sobre o travesseiro imagens que nunca passam de meras figurações do que poderia ser realidade. Se ainda não o são é por culpa da covardia. Desculpe ser tão rude, mas me fogem eufemismos para essa desqualificação.
Sobre a mesa uns pequenos pedaços de papel colorido, rabiscados com lembretes de tarefas que jamais serão cumpridas. Só não é tortura porque de alguma forma os papéis a confortam de um jeito mórbido e sombrio. É como uma deixa para qualquer desculpa mal inventada se encaixar perfeitamente na sua consciência covarde.
A cada mês passado aumenta a sensação de que o que deveria ser feito fica gradativa e definitivamente para trás. Acho que ela espera por isso. Espera que a sua mente se esqueça de anotar novas tarefas nos papéis coloridos. Porém com todos os dias nasce um novo desejo. Acumulam-se em montanhas coloridas de celulose, quase tão grandes quanto o medo de realizá-los.
Encontrei-a outro dia passeando. Tinha agarrada ao colo um livro grosso e aparentemente pesado. Assim que a vi acenei e tive como retribuição um lindo sorriso. Nos aproximamos e conversamos. Perguntei o que era o pequeno papel rosa colado ao livro. Respondeu-me serena que estava indo viajar.
Sobre a mesa uns pequenos pedaços de papel colorido, rabiscados com lembretes de tarefas que jamais serão cumpridas. Só não é tortura porque de alguma forma os papéis a confortam de um jeito mórbido e sombrio. É como uma deixa para qualquer desculpa mal inventada se encaixar perfeitamente na sua consciência covarde.
A cada mês passado aumenta a sensação de que o que deveria ser feito fica gradativa e definitivamente para trás. Acho que ela espera por isso. Espera que a sua mente se esqueça de anotar novas tarefas nos papéis coloridos. Porém com todos os dias nasce um novo desejo. Acumulam-se em montanhas coloridas de celulose, quase tão grandes quanto o medo de realizá-los.
Encontrei-a outro dia passeando. Tinha agarrada ao colo um livro grosso e aparentemente pesado. Assim que a vi acenei e tive como retribuição um lindo sorriso. Nos aproximamos e conversamos. Perguntei o que era o pequeno papel rosa colado ao livro. Respondeu-me serena que estava indo viajar.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Clarisse
Não conheço Clarice.
Nunca a vi passar.
Algum mistério que a
envolve me desperta
Curiosidade ao reverso.
Vontade de conhecê-la
fisicamente não tenho.
Gostaria mesmo era de
desvendá-la.
O que queria dizer
Clarice?
É o que dizem por aí.
Seria mesmo triste
assim?
Acreditando e
desacreditando no amor.
Clarisse.
Dizem que se parece com
uma flor.
Só que desabrocha no
inverno.
Para reinar sozinha
Infinita
Na imaginação de todo
beija-flor.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Quitéria
Quitéria pare de reclamar! Mas que coisa Quitéria! Já lhe disse que se a comida estiver sem sal, bote. O dia está de gelar as canelas? Agasalhe teus cambitos. Nunca vi quem reclamasse mais que ela. Coitada da Quitéria. Ficava sentada, ouvindo a própria respiração na varanda que dava de frente pra Rua do Cisne. Passava o Zé Ferreiro, o Maltinho e o Milton Jacarandá. Quitéria mandava uma "olá". Mas ninguém se dava ao esforço de retribuir o cumprimento. Como era feia e desajustada a bichinha. De dar dó. Era compreensível que a mulher não calasse a matraca, reclamando de Buda a Maomé.
Mas um dia, que nem belo era, apareceu na vida de Quitéria um moço dos mais corajosos. Galenteava como um princípe aquele ser de rosto castigado pela natureza. Os cromossomos da beleza a abandonaram. Mas os da sorte foram solidários. Quitéria fazia-se de difícil, mas sabia que era aquela a única saída pra se desvirginar no amor. E o moço, além de corajoso, era insistente. Perseverou até o dia que comprou uma flor. Quitéria enfim acreditou, que o seu destino enfim a ajudou. Quando ela finalmente disse sim, o moço teve os olhos abertos, o encanto disperso e um grito soltou: Meu Santo Deus do Céu!
Mas um dia, que nem belo era, apareceu na vida de Quitéria um moço dos mais corajosos. Galenteava como um princípe aquele ser de rosto castigado pela natureza. Os cromossomos da beleza a abandonaram. Mas os da sorte foram solidários. Quitéria fazia-se de difícil, mas sabia que era aquela a única saída pra se desvirginar no amor. E o moço, além de corajoso, era insistente. Perseverou até o dia que comprou uma flor. Quitéria enfim acreditou, que o seu destino enfim a ajudou. Quando ela finalmente disse sim, o moço teve os olhos abertos, o encanto disperso e um grito soltou: Meu Santo Deus do Céu!
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Que Seja
Que chova
Que molhe
Que fale
Que chore
Que cale
Que esqueça
Que queira
Que peça
Que ouse
Que seja!
Que molhe
Que fale
Que chore
Que cale
Que esqueça
Que queira
Que peça
Que ouse
Que seja!
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