Se não faz rir
Nem pensar
Se não faz sentir
Nem chorar
Só pode não ser arte...
...nem amor.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
terça-feira, 29 de maio de 2012
Lábios Rubros
O barulho líquido que faz a cerveja ao cair no copo roubou a
atenção que ele prestava àqueles lábios lindos e rubros. Sem se dar conta de
que o que saia deles percorria um caminho tortuoso de um ouvido a outro, porém
sem a devida parada na consciência. Sabia que na verdade qualquer palavra proferida
por ela soaria bem. Como todas as outras vezes preferia ouvir a falar. Afinal
não encontrava motivos para interromper o deleite da observação. Novos
contornos se exibiam a cada novo encontro. Novas razões para continuar calado,
observando e criando na fertilidade da imaginação um cenário perfeito em tempo,
lugar e situação. A garganta permanecia seca, mas a cerveja veio salvá-lo.
Ela pensava em duas situações. Quem realmente ele era e o
que ele queria. Apesar de saber muito sobre o sujeito, tinha lá suas dúvidas
quanto aos desejos e intenções do rapaz. Alguma coisa naquelas sobrancelhas
dizia que valia a pena tentar descobrir, mas os olhos que não desgrudavam dos
lábios a incomodavam, mesmo que isso também causasse uma estranha sensação de
satisfação. Incrivelmente pensava em tudo isso sem deixar de falar um só
segundo.
Ele via a noite nascer por detrás dos cabelos dela.
Questionou-se se aquele tipo de encantamento poderia ser cessado quando quisesse.
Desesperado caiu em si que não. Iniciou uma sequência devastadora de piscadas
rápidas, a fim de umedecer as córneas. Ajeitou-se diversas vezes na cadeira.
Bebeu de uma só vez a cerveja espumada do copo americano. Ficou tão inquieto
que pediu licença interrompendo a oratória da garota dos lábios rubros e foi ao
banheiro. A essa altura crente de que água no rosto traria o efeito de um bom
tempo passado.
Ela assustou-se com o repentino sobressalto. Preocupada
abandonou a elaboração de teorias sobre o futuro e suas escolhas. Levantou e
foi à porta do banheiro saber se ele estava bem. Bateu delicadamente e
perguntou com as pontas dos dedos o que ele tinha. Ele respondeu que estava
bem, que só tinha levado um susto.
Ao ouvir a voz dos lábios rubros sem vê-los pela primeira
vez, percebeu que a voz era tão doce e aveludada quanto a imaginava por
inteiro. E o tom preocupado que ela tinha empregado na interrogativa fez sentir-se
melhor, mais sereno.
Ela respondeu que o esperava de volta, na mesa.
Ele disse que já estava indo.
Ela só queria vê-lo e ter a certeza de que estava bem.
Ele jogou mais água no rosto.
Ela já não pensou em mais nada.
Ele também não.
Eles conversaram o resto da noite e pela manhã os lábios já
não eram mais rubros.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Xeque
Descobriram durante uma
maliciosa conversa de bar que a vida é cíclica. Uma velha novidade,
martelada insistentemente pelos pioneiros dessa descoberta. Contudo, só fica verdadeiramente esclarecido sobre o tema, quem sente cada
fim e começo e começo e fim. Aliás, esse negócio de começar e
terminar e depois começar de novo é difícil de pegar. Ninguém
vira especialista de tão principal matéria. A explicação é
simples como dois e dois são quatro. A vida é cíclica. E se é
assim, tudo muda. O jogo se alterna. Os peões viram bispos. E as
rainhas, reis. Vai-se arriscando nas estratégias, elaborando
possibilidades. Ao sabor das próprias conjeturas. Se joga com
intensidade vital até que de uma hora para outra o xeque se
apresenta. Por nossa vontade ou não. Apesar de saber que o fim é
certo, ficamos sobressaltados por um certo receio subconsciente de um
novo começo. Fazer o quê se é cíclica a vida? Traz mais uma
Valdir.
domingo, 22 de abril de 2012
Rabisco
Se amasse além do que quisesse
Antes que devesse
Quem eu não pudesse
Seria nada mais que apenas
Eu; tentando provar
Que ao contrário do ideal
O amor é rebelde
E apesar de ser como é
Nunca quer acabar mal.
Antes que devesse
Quem eu não pudesse
Seria nada mais que apenas
Eu; tentando provar
Que ao contrário do ideal
O amor é rebelde
E apesar de ser como é
Nunca quer acabar mal.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Frio na Barriga
No balanço quando te
empurraram um pouco mais forte ou em uma ingrime descida em ponto
morto. Geralmente é assim que nos acomete o primeiro frio na
barriga. Dá vontade de chorar, mas um sorriso também desponta. “Que
coisa é essa?” a gente se pergunta. Sensação estranha, gostosa e
ruim. De querer de novo e de nunca mais. É o nosso paladar
descobrindo o gosto de estar à deriva. Sem saber se é medo ou
excitação. Ambos, talvez. Com o tempo, por capricho do mistério, o
frio na barriga vai mudando o seu rosto. Se disfarça para nunca cair
em desuso. Vira olhares, pegar na mão. Vira sim e vira não. Depois
se traveste de amor. E quando de mal humor, de fim. Assim a vida vai,
com o frio na barriga e suas traquinagens que nos temperam com sabor
agridoce, só de sacanagem. Mas não se engane. Ele é o mesmo de
sempre. Por mais que se fantasie, o frio na barriga continua sendo só
a gente voando mais alto no balanço.
quinta-feira, 8 de março de 2012
Mulheres
Adoro quando vocês tão
delicadas me colocam no lugar. Me fazem entender que qualquer suposta
pseudossuperioridade masculina é anulada por um simples ar mais
tristonho que habilmente usam para conseguir o que bem quiserem. Eu
me orgulho quando vocês estão por cima – e me xingam nesse exato
momento por usar essa expressão ambígua, machista e de mal gosto –
e fazem de nós meros instrumentos. Eu quero é ser lembrado como um
súdito, que obediente acode suas rainhas quando elas se permitem
chorar. Desejo nunca esquecer os seus gestos, ora sutis, ora fatais,
porém sempre resguardando as unhas que acabaram de fazer. Vejo
graça, no melhor entendimento da palavra, quando vocês se pintam
com esmero e concentração achando que ficarão mais bonitas, mas
não percebem que mesmo ao acordar vocês são tudo o que queremos
ver. Eu torço para que enfim o mundo seja de vocês. Assim
realizarei um velho sonho. Ser apenas um súdito.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
O Primeiro Voo
Se os dias fossem todos como aquele, certamente não os confundiria na memória. Apesar dos poucos e primeiros anos teve uma experiência que lhe deixou pasmado, incrédulo e flutuando. Sentado sobre a grama-capim, debaixo de um pé de jabuticaba, sentia um tédio natural de garoto da cidade. Pai e mãe trocavam novas com a avó dentro do casebre de madeira que cheirava aos anos passados. Era a primeira visita do pequeno rapaz aos aposentos interioranos da família. Seus pensamentos eram indecifráveis porque não dominava o vocábulo. Enquanto seus olhos e mãos se concentravam num brinquedo de plástico poligonal sentiu um rápido zumbido passar muito próximo de uma das orelhas. Pensou ser qualquer coisa que ele aprenderia a nomear somente alguns anos mais tarde. Continuou atento ao brinquedo. Quando um som doce e agudo lhe fez subir os olhos para frente. Era um bichinho pequeno e bicudo. A curiosidade de criança tomou seu pequeno corpo e o fez engatinhar até o bicho. Estendeu as mãos e o bicho subiu. O menino abriu um sorriso lindo e sincero. Sentiu o deleite da confiança. Mas então o bicho voou. Os seus olhos fitaram a trajetória do seu novo amigo, sua boca se abriu e lágrimas se apresentaram. O garoto descobriu pela primeira vez o que era um pássaro voando depois de tê-lo nas mãos. Saudade.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Eterna Adolescência
Quão pequenas são
As pequenas coisas, não?
Tão pequenas
Que não se distanciam do chão.
Dizem-me para vivê-las
Intensa e dementemente
Sequer consigo percebê-las
Mesmo escancaradas em minha frente.
Talvez seja esse o motivo principal
Da minha indecência.
Aludir a minha alma
À eterna adolescência.
As pequenas coisas, não?
Tão pequenas
Que não se distanciam do chão.
Dizem-me para vivê-las
Intensa e dementemente
Sequer consigo percebê-las
Mesmo escancaradas em minha frente.
Talvez seja esse o motivo principal
Da minha indecência.
Aludir a minha alma
À eterna adolescência.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Amém
Hoje pela primeira vez
sinto que envelheci. Nada grave. Mas sinto. Acordei com um sol quente
e muito amarelo sobre a minha cara e uma ligação. E de maneira
inédita entendi que alguém lembrou de mim muito cedo. Saber da
importância desse ato me esclareceu a minha verdadeira idade.
Passei por algumas
coisas que me transformaram. Nem me reconheço mais. E o melhor de
tudo é que acho isso incrível. Meus olhos se abriram para pessoas
que sempre me deram muito mais do que um simples olá. Que me deram o
presente da sua companhia. Mas antes, no auge da minha juventude
cegueta, não conseguia dimensionar o papel que elas desempenham na
minha linda vida.
Posso dizer que tenho
amigos e família. De verdade. Nem sei se deveriam ter nomes
diferentes. Os meus amigos são a minha família – é
propositalmente ambíguo. Tenho em mim um sentimento de – até
agora – dever cumprido pelo simples fato de ser franco, sincero com
quem me cerca. E agora, comigo. Já não sei me esconder, nem
interpretar. Talvez só no papel.
Tento todos os dias me
conscientizar dos meus defeitos, das minhas manias. Pragas que antes
não tinha ideia de que continha. Percebi que a minha personalidade é
forte, a minha voz é grave e as minhas palavras ásperas. Combinação
perfeita para a antipatia. Portanto comecei a me reeducar. Tentar
falar menos, mais baixo, com menos certeza.
É um processo longo,
contudo prazeroso, para entender que tipo de ser humano eu quero ser.
Eu quero ser o melhor sabendo que nunca serei. Assim não deixarei de
me incomodar com a minha própria postura, com meus próprios
pensamentos. Ai então conseguirei não sossegar até a derradeira
hora que sossegarem por mim.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Ela Que Não Sabe (Quer) Realizar
Noites e noites deitando sobre o travesseiro imagens que nunca passam de meras figurações do que poderia ser realidade. Se ainda não o são é por culpa da covardia. Desculpe ser tão rude, mas me fogem eufemismos para essa desqualificação.
Sobre a mesa uns pequenos pedaços de papel colorido, rabiscados com lembretes de tarefas que jamais serão cumpridas. Só não é tortura porque de alguma forma os papéis a confortam de um jeito mórbido e sombrio. É como uma deixa para qualquer desculpa mal inventada se encaixar perfeitamente na sua consciência covarde.
A cada mês passado aumenta a sensação de que o que deveria ser feito fica gradativa e definitivamente para trás. Acho que ela espera por isso. Espera que a sua mente se esqueça de anotar novas tarefas nos papéis coloridos. Porém com todos os dias nasce um novo desejo. Acumulam-se em montanhas coloridas de celulose, quase tão grandes quanto o medo de realizá-los.
Encontrei-a outro dia passeando. Tinha agarrada ao colo um livro grosso e aparentemente pesado. Assim que a vi acenei e tive como retribuição um lindo sorriso. Nos aproximamos e conversamos. Perguntei o que era o pequeno papel rosa colado ao livro. Respondeu-me serena que estava indo viajar.
Sobre a mesa uns pequenos pedaços de papel colorido, rabiscados com lembretes de tarefas que jamais serão cumpridas. Só não é tortura porque de alguma forma os papéis a confortam de um jeito mórbido e sombrio. É como uma deixa para qualquer desculpa mal inventada se encaixar perfeitamente na sua consciência covarde.
A cada mês passado aumenta a sensação de que o que deveria ser feito fica gradativa e definitivamente para trás. Acho que ela espera por isso. Espera que a sua mente se esqueça de anotar novas tarefas nos papéis coloridos. Porém com todos os dias nasce um novo desejo. Acumulam-se em montanhas coloridas de celulose, quase tão grandes quanto o medo de realizá-los.
Encontrei-a outro dia passeando. Tinha agarrada ao colo um livro grosso e aparentemente pesado. Assim que a vi acenei e tive como retribuição um lindo sorriso. Nos aproximamos e conversamos. Perguntei o que era o pequeno papel rosa colado ao livro. Respondeu-me serena que estava indo viajar.
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