Sol e Lua
Seco e chuva
O tempo é volátil demais
Até com o que nos trás
Sempre acreditei no destino
É mais fácil ter um caminho
assim como um menino
que não quer parar de brincar
Não é sempre que chove
E quando chove talvez não molhe
A terra onde eu vou pisar
Também não é segredo
que eu tenho medo
quem nunca teve pode uma pedra arremessar
sábado, 4 de setembro de 2010
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Caos(as) Maiores
A esposa levanta alegre, cantante, pulando da cama e sacudindo o marido que babava no travesseiro de penas de alguma ave qualquer. Ele reluta em dar atenção à euforia da esposa. Vira-se pra um lado, vira-se para o outro. Enquanto isso ela vai até o banheiro para sua higiene matinal. Volta, abre as janelas e diz:
_Arnaldo, olha que dia lindo, é o seu dia meu amor!
Arnaldo ainda não tinha percebido o alvoroço na rua da sua casa, bem em frente ao seu portão. A esposa delirante vendo a algazarra gritava:
_Ai que emoção! Eles vieram pra te apoiar, te levantar como um herói para o Brasil e para o Mundo!
Ouvia-se gritos vindos da rua, mas de dentro da casa não era possível identificá-los nitidamente. Arnaldo resolveu enfim se compor para enfrentar aquele dia que já não começara da maneira que lhe apetecia. Na mesa do café da manhã, Arnaldo comia suas tradicionais bolachas de água e sal, mas sentiu falta do leite sobre a mesa.
_Maria, pegue o leite pra mim? disse ele. Ela sem pestanejar levantou-se e foi correndo até a geladeira apanhar o item solicitado. Maria sentou-se em frente a Arnaldo e perguntou:
_Querido, você acha que vai ser fácil? Vai ser fácil, não é? Eles te adoram!
_Eles não me adoram. Esse povo não adora ninguém. A gente quer fazer um trabalho decente e todo mundo fica reclamando de dinheiro de pinga que é desviado para causas maiores!
_Mas se as causas são "maiores", não é mais fácil explicar isso pra eles?
_Maria do Céu! Eles não sabem nem ler. Explicar alguma coisa pra essa gente é falar com uma porta.
_Você já tentou falar com uma porta?
_O que? Ah, deixa pra lá! Você me acompanha hoje? Em dia de eleição sempre é bom mostrar o lado família!
_Claro querido, vamos nos aprontar. E aliás, não esquece de colocar seu Armani, você tem que ficar muito elegante! O povo tem que saber que está bem representado pelo chiquérrimo Arnaldo Ferraz!
_Eu sei, eu sei. É por isso que eu te amo querida! Você me entende, sempre quer o melhor pra mim, e além do mais sabe como ninguém combinar as minhas "causas maiores".
_Arnaldo, olha que dia lindo, é o seu dia meu amor!
Arnaldo ainda não tinha percebido o alvoroço na rua da sua casa, bem em frente ao seu portão. A esposa delirante vendo a algazarra gritava:
_Ai que emoção! Eles vieram pra te apoiar, te levantar como um herói para o Brasil e para o Mundo!
Ouvia-se gritos vindos da rua, mas de dentro da casa não era possível identificá-los nitidamente. Arnaldo resolveu enfim se compor para enfrentar aquele dia que já não começara da maneira que lhe apetecia. Na mesa do café da manhã, Arnaldo comia suas tradicionais bolachas de água e sal, mas sentiu falta do leite sobre a mesa.
_Maria, pegue o leite pra mim? disse ele. Ela sem pestanejar levantou-se e foi correndo até a geladeira apanhar o item solicitado. Maria sentou-se em frente a Arnaldo e perguntou:
_Querido, você acha que vai ser fácil? Vai ser fácil, não é? Eles te adoram!
_Eles não me adoram. Esse povo não adora ninguém. A gente quer fazer um trabalho decente e todo mundo fica reclamando de dinheiro de pinga que é desviado para causas maiores!
_Mas se as causas são "maiores", não é mais fácil explicar isso pra eles?
_Maria do Céu! Eles não sabem nem ler. Explicar alguma coisa pra essa gente é falar com uma porta.
_Você já tentou falar com uma porta?
_O que? Ah, deixa pra lá! Você me acompanha hoje? Em dia de eleição sempre é bom mostrar o lado família!
_Claro querido, vamos nos aprontar. E aliás, não esquece de colocar seu Armani, você tem que ficar muito elegante! O povo tem que saber que está bem representado pelo chiquérrimo Arnaldo Ferraz!
_Eu sei, eu sei. É por isso que eu te amo querida! Você me entende, sempre quer o melhor pra mim, e além do mais sabe como ninguém combinar as minhas "causas maiores".
domingo, 8 de agosto de 2010
Simples
Sou simples. Tenho desejos simples. Simples pra mim, não para o mundo. Tudo o que se quer ganha complexidade intensa quando se deseja muito alguma coisa. Talvez seja proposital, algo como uma peça do destino pra ninguém se acomodar e logo se entediar com a vida. Muitos tem a ilusão de viver para o futuro, de fazer planos que desfocam o seu próprio presente. Nada contra fazer planos, só acho que o agora é o lugar mais importante na linha do tempo.
Parar de viver pensando no que pode acontecer daqui a determinado período é uma escolha. E escolhas tem uma considerável propabilidade de não corresponder às expectativas de quem as fez. Eu escolho o agora, eu escolho o aqui. E, infelizmente, também corro o risco de estar errado. Por isso meus desejos são simples. Eles se resumem em querer que o meu agora seja bom, e que o agora de amanhã seja melhor ainda. Mas quando se deseja muito alguma coisa o que faz o destino? Te prega peças. Peças pequenas e grandes. Peças que são como pedras que se deve tirar do caminho e às vezes pisá-las descalço, pra que quando o chão macio chegar, o alívio seja ainda mais prazeroso.
Onde quero chegar com toda essa reflexão? Quero saber como lidar com as pedras. Não sei se tenho habilidade suficiente pra me desviar delas. Não me culpo por isso. Estou aprendendo, afinal, que sei eu da vida? Sei muita coisa, mas não é metade do que está por se apresentar a mim. Mas das poucas coisas que sei da vida, é que ela é simples, que nem eu. E é por isso que eu gosto dela. E acho sinceramente que ela também gosta de mim. Dou as minhas mãos à vida e deixo ela me guiar. Porque apesar de tudo eu confio nos seus caminhos.
Parar de viver pensando no que pode acontecer daqui a determinado período é uma escolha. E escolhas tem uma considerável propabilidade de não corresponder às expectativas de quem as fez. Eu escolho o agora, eu escolho o aqui. E, infelizmente, também corro o risco de estar errado. Por isso meus desejos são simples. Eles se resumem em querer que o meu agora seja bom, e que o agora de amanhã seja melhor ainda. Mas quando se deseja muito alguma coisa o que faz o destino? Te prega peças. Peças pequenas e grandes. Peças que são como pedras que se deve tirar do caminho e às vezes pisá-las descalço, pra que quando o chão macio chegar, o alívio seja ainda mais prazeroso.
Onde quero chegar com toda essa reflexão? Quero saber como lidar com as pedras. Não sei se tenho habilidade suficiente pra me desviar delas. Não me culpo por isso. Estou aprendendo, afinal, que sei eu da vida? Sei muita coisa, mas não é metade do que está por se apresentar a mim. Mas das poucas coisas que sei da vida, é que ela é simples, que nem eu. E é por isso que eu gosto dela. E acho sinceramente que ela também gosta de mim. Dou as minhas mãos à vida e deixo ela me guiar. Porque apesar de tudo eu confio nos seus caminhos.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Especial
Seis bilhões de pessoas no mundo. Pensando racionalmente quase dá pra entrar em crise de desesperança. Quantas dessas bilhões são realmente especiais? Não creio que muitas, porque até hoje não conheci número suficiente para perder a conta. Fico me perguntando o motivo de tamanha discrepância entre os ordinários e os especiais. Tempo atrás eu obtive a resposta das minhas reflexões. É preciso muitos ordinários para que possamos compreender a importância dos especiais. Não me julguem prepotente, me considero ordinário, mas um ordinário especial. Por um simples motivo: O fato de ter a imensa sorte de conhecer pessoas especiais.
E esse texto é dedicado a uma das pessoas mais especiais que eu já conheci.
E esse texto é dedicado a uma das pessoas mais especiais que eu já conheci.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Só mais uma história
O ônibus cheio deixa melindrada a jovem garota de vestido amarelo e rosto tímido. Ela carrega consigo um mala de viagem média, talvez com roupa suficiente para uma semana. Está só, e talvez por isso deixe transparecer um certo ar de espanto. Há pessoas estranhas para ela naquele lugar, não está confortável, quer chegar logo em seu destino. No bolso está um bilhete, manuscrito pela mãe e que lhe desejava boa sorte. Um a um os passageiros foram descendo em seus respectivos pontos, e a cada descida a jovem garota de vestido amarelo sentia-se mais aliviada, como se a solidão fosse sua melhor companhia. Talvez fosse, por enquanto.
Uma mulher de óculos escuros espera a garota na porta de um cinema no centro da cidade, tomando um refrigerante e observando os cartazes dos filmes. Ela de costas pra rua, ouviu o som de um ônibus freando e virou-se rapidamente como se já soubesse que a garota estava nele. Descendo os degraus do coletivo, a garota sorriu para a mulher de óculos escuros e chegando até ela a abraçou com muito carinho. "Como vai doutora?" disse a mulher dos óculos escuros. "Estou bem Clarice, e você como está? É muito bom te ver de novo." respondeu a garota de vestido amarelo. Clarice convidou a doutora, que se chamava Gabriela, para entrar no cinema. Gabriela estranhou e perguntou se não podia descansar primeiro, já que havia feito uma longa viagem. Clarice disse que era importante e que não tomaria muito seu tempo. As duas entraram no cinema que estava vazio, sentaram em poltronas separadas por duas ou três fileiras, apoiaram seus pés nos encostos das cadeiras e começaram a gargalhar. Eram velhas amigas, desde sempre. Gabriela disse "Acho que ficou bom!". Clarice respondeu que sim, que adorava quando Gabriela interpretava a doutora, "Você fica séria, se eu não te conhecesse te comprava".
Eram atrizes e viam na vida uma imensidão de histórias. Pegar um ônibus com uma mala vazia e fingir que estavam com saudades uma da outra após um falso reencontro, fazia com que acreditassem realmente estar sentindo o que interpretavam e esse era o passatempo das duas. E a vida prova que Gabriela e Clarice estão certas, que tudo é um longuíssima metragem onde quem escolhe o gênero são os próprios protagonistas.
Uma mulher de óculos escuros espera a garota na porta de um cinema no centro da cidade, tomando um refrigerante e observando os cartazes dos filmes. Ela de costas pra rua, ouviu o som de um ônibus freando e virou-se rapidamente como se já soubesse que a garota estava nele. Descendo os degraus do coletivo, a garota sorriu para a mulher de óculos escuros e chegando até ela a abraçou com muito carinho. "Como vai doutora?" disse a mulher dos óculos escuros. "Estou bem Clarice, e você como está? É muito bom te ver de novo." respondeu a garota de vestido amarelo. Clarice convidou a doutora, que se chamava Gabriela, para entrar no cinema. Gabriela estranhou e perguntou se não podia descansar primeiro, já que havia feito uma longa viagem. Clarice disse que era importante e que não tomaria muito seu tempo. As duas entraram no cinema que estava vazio, sentaram em poltronas separadas por duas ou três fileiras, apoiaram seus pés nos encostos das cadeiras e começaram a gargalhar. Eram velhas amigas, desde sempre. Gabriela disse "Acho que ficou bom!". Clarice respondeu que sim, que adorava quando Gabriela interpretava a doutora, "Você fica séria, se eu não te conhecesse te comprava".
Eram atrizes e viam na vida uma imensidão de histórias. Pegar um ônibus com uma mala vazia e fingir que estavam com saudades uma da outra após um falso reencontro, fazia com que acreditassem realmente estar sentindo o que interpretavam e esse era o passatempo das duas. E a vida prova que Gabriela e Clarice estão certas, que tudo é um longuíssima metragem onde quem escolhe o gênero são os próprios protagonistas.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Devaneios de três bêbados
Os diálogos abaixo foram confeccionados de forma improvisada e sequencial.
@diogodias como Cara 1
@renato_al como Cara 2
@_AndersonDias_ como Cara 3
Cara 1: América, ó América!
Cara 2: Mas que porra de América é essa meu filho?
Cara 3: Por que todo mundo quer ir para a América?
Cara 1: Ir? Quem falou em ir pra algum lugar? Não estamos bem aqui?
Cara 2: Mas você mesmo foi quem lembrou da América, aquela tão longe!
Cara 3: Quem disse que ela está tão longe? Falamos tanto dela e nem a conhecemos...
Cara 1: Eu a conheço muito bem. Vadia!
Cara 2: Então é isso! América é tudo aquilo que conhecemos de pernas abertas.
Cara 3: Ah, América!
Cara 1: Então você lembrou?
Cara 2: Pra mim, a América é tudo aquilo que nos dá vida, não importa como.
Cara 3: Tudo que dá vida o que? A América é a maior putaria!
Cara 1: Puta que pariu! Quanta promiscuidade pra só duas cabeças!
Cara 2: Promiscuidade e putaria andam juntas. E a vida vem logo depois.
Cara 3: Mas a vida é assim. Desde pequena é sofrida.
Cara 1: Meus amigos, que coisa, não? América nos trouxe pessimismo sem precedentes.
Cara 2: Não é pessimismo. A vida parte de uma putaria sem tamanho, amigo.
Cara 3: É a gente começa assim e vê que tudo acaba em putaria.
Cara 1: A putaria é o começo. No fim ou goza ou broxa.
Cara 2: É isso que eu queria dizer. Se goza é vida. Se broxa, nem putaria é.
Cara 3: Na América tem muito mais gente que curte a vida.
Cara 1: Psicodelia regada à álcool essa a nossa, não?
Cara 2: Há psicodelia de todo o jeito, a do álcool é assim. Sempre puxa pra putaria.
Cara 3: Afinal o que seria do álcool se não existisse a putaria, e da putaria se não existisse o álcool?
Cara 1: É como o ovo e a galinha.
Cara 2: É como aquela vontade irremediável de mijar sem ter a porra de um sanitário aqui por perto...
Cara 3: Há tantos lugares pra mijar na América. Argentina, por exemplo.
Cara 1: Tenho que ir, aceitam carona?
Cara 2: Peraí, agora que íamos falar das coisas sujas da América. Mijar é uma coisa suja..
Cara 3: Coisas sujas? Já falamos da Argentina.
Cara 1: A América é favela. Mas só num cantinho tem samba.
Cara 2: Vocês sempre lembram da última azeitona, mas tudo tem valor.
Cara 3: Sim. Tudo tem seu valor. O que seria de nós sem os americanos pra criar e os chineses pra copiar?
Cara 1: Seríamos o que somos de melhor. Criadores e copiões.
Cara 2: Mas com quem você aprenderia a criar, e com quem aprenderia a copiar?
Cara 3: Seria o jeito brasileiro de ser.
Cara 1: Ok. Vamos.
@diogodias como Cara 1
@renato_al como Cara 2
@_AndersonDias_ como Cara 3
Cara 1: América, ó América!
Cara 2: Mas que porra de América é essa meu filho?
Cara 3: Por que todo mundo quer ir para a América?
Cara 1: Ir? Quem falou em ir pra algum lugar? Não estamos bem aqui?
Cara 2: Mas você mesmo foi quem lembrou da América, aquela tão longe!
Cara 3: Quem disse que ela está tão longe? Falamos tanto dela e nem a conhecemos...
Cara 1: Eu a conheço muito bem. Vadia!
Cara 2: Então é isso! América é tudo aquilo que conhecemos de pernas abertas.
Cara 3: Ah, América!
Cara 1: Então você lembrou?
Cara 2: Pra mim, a América é tudo aquilo que nos dá vida, não importa como.
Cara 3: Tudo que dá vida o que? A América é a maior putaria!
Cara 1: Puta que pariu! Quanta promiscuidade pra só duas cabeças!
Cara 2: Promiscuidade e putaria andam juntas. E a vida vem logo depois.
Cara 3: Mas a vida é assim. Desde pequena é sofrida.
Cara 1: Meus amigos, que coisa, não? América nos trouxe pessimismo sem precedentes.
Cara 2: Não é pessimismo. A vida parte de uma putaria sem tamanho, amigo.
Cara 3: É a gente começa assim e vê que tudo acaba em putaria.
Cara 1: A putaria é o começo. No fim ou goza ou broxa.
Cara 2: É isso que eu queria dizer. Se goza é vida. Se broxa, nem putaria é.
Cara 3: Na América tem muito mais gente que curte a vida.
Cara 1: Psicodelia regada à álcool essa a nossa, não?
Cara 2: Há psicodelia de todo o jeito, a do álcool é assim. Sempre puxa pra putaria.
Cara 3: Afinal o que seria do álcool se não existisse a putaria, e da putaria se não existisse o álcool?
Cara 1: É como o ovo e a galinha.
Cara 2: É como aquela vontade irremediável de mijar sem ter a porra de um sanitário aqui por perto...
Cara 3: Há tantos lugares pra mijar na América. Argentina, por exemplo.
Cara 1: Tenho que ir, aceitam carona?
Cara 2: Peraí, agora que íamos falar das coisas sujas da América. Mijar é uma coisa suja..
Cara 3: Coisas sujas? Já falamos da Argentina.
Cara 1: A América é favela. Mas só num cantinho tem samba.
Cara 2: Vocês sempre lembram da última azeitona, mas tudo tem valor.
Cara 3: Sim. Tudo tem seu valor. O que seria de nós sem os americanos pra criar e os chineses pra copiar?
Cara 1: Seríamos o que somos de melhor. Criadores e copiões.
Cara 2: Mas com quem você aprenderia a criar, e com quem aprenderia a copiar?
Cara 3: Seria o jeito brasileiro de ser.
Cara 1: Ok. Vamos.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Salve a Cerveja!
Um salão nobre, damas e cavalheiros muito bem vestidos. Um verdadeiro desfile de smokings e vestidos de alta costura. Ao fundo, a trilha é tocada por um pianista de luvas brancas. Todos tomam cuidado ao falar. O garçom interrompe uma conversa de uma roda de senhores e diz: _Aceitam cerveja?
Essa cena é impensável, pelo menos de acordo com nossa bagagem cultural. Por um simples motivo. A cerveja está marginalizada. É! Isso mesmo. Vou repetir. A cerveja está marginalizada! E sabe quem leva a fama de boa bebida? Os destilados, sobretudo o uísque. No cinema, na televisão, nas rodas da alta sociedade. Ninguém coloca a cerveja no casting. Nas cenas da novela, quando alguém é recebido em casa, o anfitrião logo oferece um scotch e duas pedras de gelo. No cinema idem. Nos jantares de negócio e eventos sociais o uísque reina absoluto. Absolut? Também! Até a soviética vodca ganhou espaço no status de bebida conveniente. O engraçado, é que poucas pessoas sabem degustar um destilado. A maioria aceita por educação, toma um gole homeopático e ainda faz cara feia, como se isso fosse dizer: "Pô! Essa é da boa". Por que então não abrir o coração, ser sincero e dizer: "Não obrigado. Você tem cerveja?". Porque a cerveja está marginalizada.
Dizem que ela engorda, que é agente de inchaço abdominal, que prejudica a circulação. Que é tomada em grandes quantidades (e daí?), e faz arrotar. Coitada, ela não pode sofrer tamanho preconceito! Olha o lado bom. Tem baixo teor alcoólico, é feita de cereais, é uma bebida totalmente social, geradora de assunto. Não se vê inimigos tomando cerveja juntos. Ao contrário do uísque. Tá vendo? A cerveja é uma bebida sincera e que deixa seus apreciadores também com altas doses de sinceridade. Cerveja combina com churrascos, aniversários, confraternizações da firma, e até festas infantis, para que os pais não morram de tédio e de azia de só ingerir salgadinhos e refrigerantes. Vamos valorizar a cerveja!
Se você é ministro, embaixador, empresário, socialite que não tem o que fazer e organiza festas sem motivo específico, anfitrião ricasso, cineasta ou autor de novela, peço-lhes rever seus conceitos. Não é com uma bela garrafa de Chivas que se ganha a simpatia de alguém. É com aquela garrafa marrom com rótulo caindo e com a transcrição CERVEJA no vidro.
Tomar bem.
Essa cena é impensável, pelo menos de acordo com nossa bagagem cultural. Por um simples motivo. A cerveja está marginalizada. É! Isso mesmo. Vou repetir. A cerveja está marginalizada! E sabe quem leva a fama de boa bebida? Os destilados, sobretudo o uísque. No cinema, na televisão, nas rodas da alta sociedade. Ninguém coloca a cerveja no casting. Nas cenas da novela, quando alguém é recebido em casa, o anfitrião logo oferece um scotch e duas pedras de gelo. No cinema idem. Nos jantares de negócio e eventos sociais o uísque reina absoluto. Absolut? Também! Até a soviética vodca ganhou espaço no status de bebida conveniente. O engraçado, é que poucas pessoas sabem degustar um destilado. A maioria aceita por educação, toma um gole homeopático e ainda faz cara feia, como se isso fosse dizer: "Pô! Essa é da boa". Por que então não abrir o coração, ser sincero e dizer: "Não obrigado. Você tem cerveja?". Porque a cerveja está marginalizada.
Dizem que ela engorda, que é agente de inchaço abdominal, que prejudica a circulação. Que é tomada em grandes quantidades (e daí?), e faz arrotar. Coitada, ela não pode sofrer tamanho preconceito! Olha o lado bom. Tem baixo teor alcoólico, é feita de cereais, é uma bebida totalmente social, geradora de assunto. Não se vê inimigos tomando cerveja juntos. Ao contrário do uísque. Tá vendo? A cerveja é uma bebida sincera e que deixa seus apreciadores também com altas doses de sinceridade. Cerveja combina com churrascos, aniversários, confraternizações da firma, e até festas infantis, para que os pais não morram de tédio e de azia de só ingerir salgadinhos e refrigerantes. Vamos valorizar a cerveja!
Se você é ministro, embaixador, empresário, socialite que não tem o que fazer e organiza festas sem motivo específico, anfitrião ricasso, cineasta ou autor de novela, peço-lhes rever seus conceitos. Não é com uma bela garrafa de Chivas que se ganha a simpatia de alguém. É com aquela garrafa marrom com rótulo caindo e com a transcrição CERVEJA no vidro.
Tomar bem.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Pois é, o frio existe.
Sua mãe dizia: "Se agasalhe meu filho". Mas ele nunca acreditou no frio. Assim como não acreditava na solidão. Era sua primeira noite na nova casa. Arejada, aconchegante e acolhedora, tinha tudo para ser seu canto preferido do mundo. Como casa foi usado anteriormente de forma figurativa, convém esclarecer que se trata de um apartamento. Aliás com uma bela vista da avenida Ipiranga. Sua autoestima tranquilizava seus nervos e iludia seu corpo de que ele estava totalmente preparado para enfrentar o mundo.
Ainda com o apartamento sofrendo com as tralhas da mudança e suas roupas aguentando sem claustrofobia o confinamento da mala, resolveu descer e reconhecer a região. Sua nova vizinhança. Era como se estivesse marcando território. Caminhando com as mãos no bolso, sentiu um cheiro delicioso de café. Apenas volveu a cabeça para a direita e viu uma simpática casinha de moldes antiquados (digo isso sem nenhuma intenção pejorativa). A porta era de madeira e a janela também. Tinha uma cor rosada, certamente se as mulheres a vissem inventariam um sobrenome muito criativo para ela. Algo como rosa framboesa. Enfim, isso não vem ao caso. Curioso, mesmo sem saber porque, resolveu ir até a casa e bater à porta. Parou em frente, serrou o punho e deu três toques rápidos na porta de cedro. A porta se abriu e revelou uma senhora, de por volta setenta anos.
_Olá. Boa tarde senhora.
_Boa tarde meu filho.
_Tudo bem?
_Tudo bem e com você?
_Tô bem também. É...Qual o seu nome?
_Benedita, mas todo mundo me chama de Dona Dita.
_Legal. O meu nome é...
_Julio?
_Como a senhora sabe?!
_Está na sua corrente.
_Ah! É verdade.
_Posso te ajudar em alguma coisa?
_É que eu acabei de me mudar para cá e estava precisando de um pouco de...
_Açucar?
_Não, não é isso. Talvez um café.
_Isso eu tenho e é dos melhores viu meu filho!
_Posso entrar?
_Mas eu não te conheço! Sou apenas uma senhora indefesa e se você for, sei lá, um ladrão?
_Se eu fosse um, não estaria conversando a todo esse tempo, concorda?
_É verdade, né? Então tá, entre meu filho.
_Com licença.
_Toda. Você gosta de biscoitos?
_Adoro!
Julio não acreditava, mas em sua primeira noite no mundo, ele foi se agasalhar do frio da solidão.
Ainda com o apartamento sofrendo com as tralhas da mudança e suas roupas aguentando sem claustrofobia o confinamento da mala, resolveu descer e reconhecer a região. Sua nova vizinhança. Era como se estivesse marcando território. Caminhando com as mãos no bolso, sentiu um cheiro delicioso de café. Apenas volveu a cabeça para a direita e viu uma simpática casinha de moldes antiquados (digo isso sem nenhuma intenção pejorativa). A porta era de madeira e a janela também. Tinha uma cor rosada, certamente se as mulheres a vissem inventariam um sobrenome muito criativo para ela. Algo como rosa framboesa. Enfim, isso não vem ao caso. Curioso, mesmo sem saber porque, resolveu ir até a casa e bater à porta. Parou em frente, serrou o punho e deu três toques rápidos na porta de cedro. A porta se abriu e revelou uma senhora, de por volta setenta anos.
_Olá. Boa tarde senhora.
_Boa tarde meu filho.
_Tudo bem?
_Tudo bem e com você?
_Tô bem também. É...Qual o seu nome?
_Benedita, mas todo mundo me chama de Dona Dita.
_Legal. O meu nome é...
_Julio?
_Como a senhora sabe?!
_Está na sua corrente.
_Ah! É verdade.
_Posso te ajudar em alguma coisa?
_É que eu acabei de me mudar para cá e estava precisando de um pouco de...
_Açucar?
_Não, não é isso. Talvez um café.
_Isso eu tenho e é dos melhores viu meu filho!
_Posso entrar?
_Mas eu não te conheço! Sou apenas uma senhora indefesa e se você for, sei lá, um ladrão?
_Se eu fosse um, não estaria conversando a todo esse tempo, concorda?
_É verdade, né? Então tá, entre meu filho.
_Com licença.
_Toda. Você gosta de biscoitos?
_Adoro!
Julio não acreditava, mas em sua primeira noite no mundo, ele foi se agasalhar do frio da solidão.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
O nosso Woodstock
Se você pudesse voltar no tempo e escolher um único acontecimento para vivenciar, qual seria? Muitos responderiam sem nenhuma dúvida que gostariam de estar no Festival de Woodstock. E não é pra menos. A primeira edição aconteceu em 1969 e reuniu mais de meio milhão de pessoas. O evento tomou proporções gigantescas, e reza a lenda que por causa do festival a principal rodovia do estado de Nova Iorque foi bloqueada pela multidão que se dirigia à cidade de Bethel, local escolhido para abrigar esse histórico movimento pela paz, contracultura e música em meados dos anos 60.
Voltar àquele lendário agosto de 1969 é impossível. Mas e se houvesse uma reedição do Festival de Woodstock? Legal, não é? E se por ventura essa reedição acontecesse aqui no Brasil? É isso que os grupos Totalcom e The Groove Concept estão realizando. O desafio é grande, o momento é outro, mas o espírito de conscientização e preocupação com o mundo prometem permanecer nas raízes do Festival. Além de atrações musicais, a organização do evento promete exposições e mostras de artes ligadas ao tema sustentabilidade, além de um fórum que também discutirá questões sócio-ambientais. O festival terá o nome de Stars With You – SWU/Woodstock e acontecerá entre o dias 9 e 11 de outubro deste ano. O local escolhido foi a Fazenda Maeda, em Itu, que fica a cerca de 70 km de São Paulo. O público já pode comemorar as presenças de Linkin Park, Dave Matthews Band, Pixies e Incubus, confirmados pela organização. A divulgação do festival tem como lema “SWU – Começa com você” e procura conscientizar o público para o tema do evento.
Há quem critique a iniciativa dizendo que o real objetivo dos organizadores é obter lucro ás custas de um mote que hoje em dia está em moda, a sustentabilidade. Claro que o retorno financeiro é esperado, porém o público deve comemorar a chance de participar de um evento que reunirá artistas importantes da música nacional e internacional e, além disso, o colocará em contato com um movimento contemporâneo de artes plásticas ligadas a um tema essencial para o planeta. E além de todo o argumento de sensibilização e engajamento do público, o SWU promete ser inesquecível tanto para aqueles que já presenciaram grandes festivais num passado não muito distante, quanto para aqueles que irão neste tipo de evento pela primeira vez. Boa música e cultura não irão faltar. Bom divertimento!
Voltar àquele lendário agosto de 1969 é impossível. Mas e se houvesse uma reedição do Festival de Woodstock? Legal, não é? E se por ventura essa reedição acontecesse aqui no Brasil? É isso que os grupos Totalcom e The Groove Concept estão realizando. O desafio é grande, o momento é outro, mas o espírito de conscientização e preocupação com o mundo prometem permanecer nas raízes do Festival. Além de atrações musicais, a organização do evento promete exposições e mostras de artes ligadas ao tema sustentabilidade, além de um fórum que também discutirá questões sócio-ambientais. O festival terá o nome de Stars With You – SWU/Woodstock e acontecerá entre o dias 9 e 11 de outubro deste ano. O local escolhido foi a Fazenda Maeda, em Itu, que fica a cerca de 70 km de São Paulo. O público já pode comemorar as presenças de Linkin Park, Dave Matthews Band, Pixies e Incubus, confirmados pela organização. A divulgação do festival tem como lema “SWU – Começa com você” e procura conscientizar o público para o tema do evento.
Há quem critique a iniciativa dizendo que o real objetivo dos organizadores é obter lucro ás custas de um mote que hoje em dia está em moda, a sustentabilidade. Claro que o retorno financeiro é esperado, porém o público deve comemorar a chance de participar de um evento que reunirá artistas importantes da música nacional e internacional e, além disso, o colocará em contato com um movimento contemporâneo de artes plásticas ligadas a um tema essencial para o planeta. E além de todo o argumento de sensibilização e engajamento do público, o SWU promete ser inesquecível tanto para aqueles que já presenciaram grandes festivais num passado não muito distante, quanto para aqueles que irão neste tipo de evento pela primeira vez. Boa música e cultura não irão faltar. Bom divertimento!
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Quatro e Cinco
São quatro horas e cinco minutos de um dia amargo quando olhou no relógio. Um dia que deixou o reflexo do espelho um pouco mais feio, mais gordo, apesar de seus setenta quilos distribuidos em um metro e setenta e sete de um corpo esguio e mal tratado pelo uso excessivo de álcool e pela má alimentação estimulada pela vida agitada dos dias atuais. Nada que se compare a uma aparência enferma, mas também não se via muito de vitalidade naquele sujeito. Ele olhou para o relógio e constatou que o ônibus já deveria ter passado. Não que ele fosse apanhá-lo, mas tornou-o referência para se lembrar de que já era em tempo de se mandar para casa. Constatando o atraso do coletivo resolveu iniciar a caminhada rumo ao aconchego e doçura de seu lar. Levantou-se do banco chumbado rente ao balcão do botequim onde estava calmamente saboreando seu coquetel predileto. Retirou do bolso do paletó uma velha carteira. Abriu-a para pegar o dinheiro que pagaria sua consumação e antes que o fizesse, se espantou. Algo parecia prender seu olhar à carteira aberta. Era um retrato. Um pequeno retrato, ainda em preto e branco, onde estava ele e sua esposa sentados num cais abandonado, que ele nem se lembrava onde ficava. Pareciam felizes numa intensidade impossível de crer para quem os conhecesse hoje em dia. A foto havia completado mais de vinte anos, assim como o seu casamento. Lacrimejando sorriu. Viu que, na foto, ele estava vestindo um chapéu, daqueles parecidos com os que os capos da máfia italiana usavam. Lembrou que ela adorava quando ele estava de chapéu. Dizia rindo: "Até parece um homem sério! Mas ainda bem que não é."
Após um par de minutos olhando pra foto sem desviar o foco, se deu conta que tinha que ir. Tirou o dinheiro rapidamente, pagou o balconista pela bebida e saiu a passos apressados pela calçada. Andando naquele ritmo quase-correndo e deixando escapar risos e breves gargalhadas foi virando esquinas, atravessando praças, cumprimentando desconhecidos e acariciando os cães que passavam pelo seu caminho. Acelerava os passos até perceber que já corria, feito um menino atrás de um pipa. Corria, corria. Até parar repentina e bruscamente em frente a uma loja. Uma loja de chapéus. Parou um instante admirando a vitrine, respirou fundo para retomar o fôlego, se ajeitou e entrou. "Boa tarde. Em que posso ajudá-lo?" "Boa tarde! Eu quero um chapéu. Um bem bonito, meio estilo anos trinta, Al Capone, sabe?" "Sim, senhor. Venha cá vou lhe mostrar alguns modelos." Se deliciou experimentando dezenas de modelos de chapéus. Se olhando no espelho já não sentia o excesso de feiura e gordura adquiridos naquele dia. Esbanjando sorrisos, finalmente escolheu seu preferido. "O senhor até parece um ator, daqueles de teatro." Elogiou a vendedora. E ele ainda se admirando no espelho respondeu: "O que parece, às vezes é. Vou levar este aqui!" Saiu da loja vibrante, parecia que tinha acertado os preciosos números da loteria federal. A loja já não era tão longe de sua casa como o boteco onde estava. Em dez minutos já estava em frente ao portão de casa. Inquieto, sentia que estava faltando alguma coisa. "Flores!", pensou. Num pequeno jardim entre o portão que dava para a rua e a porta da casa ele encontrou duas rosas, lindas e vermelhas. Arrancou apenas uma, pois ficou com dó de deixar o jardim solitário. Com o chapéu na cabeça e a rosa na mão esquerda, que posicionou às costas para que ninguém que o visse de frente conseguisse saber o que segurava, entrou em casa. Disse: "Querida, você está aí" Ela não estava na sala, o primeiro cômodo que se via ao entrar. Ele também não ouviu resposta. Se dirigiu até o quarto e quando abriu a porta viu na cama duas malas feitas e o guarda-roupa com as portas do lado dela abertas e completamente vazio. Mesmo não sabendo o que estava acontecendo, sentiu um aperto grande no coração. Ouviu a descarga ser acionada no banheiro, logo após do barulho do jorrar da torneira ouviu a porta se abrindo. Era ela. Estava toda bem vestida e ao vê-lo pareceu surpresa de encontrá-lo tão cedo em casa. "O que você está fazendo aqui a essa hora?" "Como assim meu amor? É o horário que costumo chegar." "Está maluco?! Ainda são quatro e cinco." "Quatro e cinco?? Mas quando...eu.." Sem completar a frase, olhou no relógio e realmente os ponteiros ainda marcavam quatro horas e cinco minutos. Estava quebrado. "O que são essas malas querida?" "São o fim do nós. Estou indo embora, já não temos nada há anos." Ele sem acreditar no que ouvira, soltou os braços e os dedos, deixando a rosa cair no chão. "Vai embora? Pensei que me amava" "E eu pensei que você fosse um homem sério." Sem dizer mais uma palavra sequer, ele sentou na cama, tirou o chapéu o segurando com as duas mãos ao colo e chorou silenciosamente com a cabeça baixa, enquanto ela passava feito um vulto por ele pra nunca mais voltar.
Após um par de minutos olhando pra foto sem desviar o foco, se deu conta que tinha que ir. Tirou o dinheiro rapidamente, pagou o balconista pela bebida e saiu a passos apressados pela calçada. Andando naquele ritmo quase-correndo e deixando escapar risos e breves gargalhadas foi virando esquinas, atravessando praças, cumprimentando desconhecidos e acariciando os cães que passavam pelo seu caminho. Acelerava os passos até perceber que já corria, feito um menino atrás de um pipa. Corria, corria. Até parar repentina e bruscamente em frente a uma loja. Uma loja de chapéus. Parou um instante admirando a vitrine, respirou fundo para retomar o fôlego, se ajeitou e entrou. "Boa tarde. Em que posso ajudá-lo?" "Boa tarde! Eu quero um chapéu. Um bem bonito, meio estilo anos trinta, Al Capone, sabe?" "Sim, senhor. Venha cá vou lhe mostrar alguns modelos." Se deliciou experimentando dezenas de modelos de chapéus. Se olhando no espelho já não sentia o excesso de feiura e gordura adquiridos naquele dia. Esbanjando sorrisos, finalmente escolheu seu preferido. "O senhor até parece um ator, daqueles de teatro." Elogiou a vendedora. E ele ainda se admirando no espelho respondeu: "O que parece, às vezes é. Vou levar este aqui!" Saiu da loja vibrante, parecia que tinha acertado os preciosos números da loteria federal. A loja já não era tão longe de sua casa como o boteco onde estava. Em dez minutos já estava em frente ao portão de casa. Inquieto, sentia que estava faltando alguma coisa. "Flores!", pensou. Num pequeno jardim entre o portão que dava para a rua e a porta da casa ele encontrou duas rosas, lindas e vermelhas. Arrancou apenas uma, pois ficou com dó de deixar o jardim solitário. Com o chapéu na cabeça e a rosa na mão esquerda, que posicionou às costas para que ninguém que o visse de frente conseguisse saber o que segurava, entrou em casa. Disse: "Querida, você está aí" Ela não estava na sala, o primeiro cômodo que se via ao entrar. Ele também não ouviu resposta. Se dirigiu até o quarto e quando abriu a porta viu na cama duas malas feitas e o guarda-roupa com as portas do lado dela abertas e completamente vazio. Mesmo não sabendo o que estava acontecendo, sentiu um aperto grande no coração. Ouviu a descarga ser acionada no banheiro, logo após do barulho do jorrar da torneira ouviu a porta se abrindo. Era ela. Estava toda bem vestida e ao vê-lo pareceu surpresa de encontrá-lo tão cedo em casa. "O que você está fazendo aqui a essa hora?" "Como assim meu amor? É o horário que costumo chegar." "Está maluco?! Ainda são quatro e cinco." "Quatro e cinco?? Mas quando...eu.." Sem completar a frase, olhou no relógio e realmente os ponteiros ainda marcavam quatro horas e cinco minutos. Estava quebrado. "O que são essas malas querida?" "São o fim do nós. Estou indo embora, já não temos nada há anos." Ele sem acreditar no que ouvira, soltou os braços e os dedos, deixando a rosa cair no chão. "Vai embora? Pensei que me amava" "E eu pensei que você fosse um homem sério." Sem dizer mais uma palavra sequer, ele sentou na cama, tirou o chapéu o segurando com as duas mãos ao colo e chorou silenciosamente com a cabeça baixa, enquanto ela passava feito um vulto por ele pra nunca mais voltar.
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