segunda-feira, 18 de julho de 2011

Insônia

De quanto café preciso?
Para me manter acordado
Montando as frases ideais
De meus pensamentos avoados

Me beije, me cubra
Com seus lábios grossos
De pele rubra
Faça meus sonhos destroços

Amanhã acordo cedo, acordo só
Cheirando o café que me manteve
Como ele só o pó

Mesmo derrotado pelo sono
Acredito no engano
Que a gente ainda é nó

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A Difícil Jornada Do Acéfalo Por Opção

É odioso começar qualquer texto com um ditado popular. Mas perdoem-me, é necessário. Portanto aí vai. "O pior cego é o que não quer ver". Bonito isso. Profundamente tocante e dolorosamente verídico. Me faz pensar em tantas coisas que nem consigo organizá-las a fim de deitá-las em letras aqui. Mas uma dessas coisas se destaca no meio das minhas divagações. Uma paródia da anedota citada. Algo tão original quanto "O pior cego é o que não quer pensar", ou então, "O pior ignorante é o que não quer saber". Enfim decidi que não tentaria perpetuar nenhuma dessas opções. Mas o olho do furacão está exatamente na essência dessas tentativas frustadas de emplacar um novo ditado. Engolindo ferozmente, sem dó, qualquer esperança que ainda reste no ser humano e em suas atitudes - quase todas - questionáveis. E como ser humano que sou (até segunda ordem) tomei a liberdade de questionar meus companheiros de raça. Eu tu nós vós eles. Todos inclusos. Não pense que você é especial, muita gente acha isso, o que o torna comum. Questiono a proeza de abrir mão do raciocínio. Somos bípedes e temos um polegar opositor (oh!), considerados a raça racional. Porém conseguimos optar por não pensar, quando não queremos. Dá preguiça às vezes, eu sei. Ninguém pensa ao responder se quer ou não um pedaço de chocolate, ou quando se está excitado. O problema é não-pensar ao ponto de perder a prática.


Jéurison levanta e faz a barba com o creme que é um Fenômeno. Liga a TV e acredita nela. Evita café porque disseram que faz mal à saúde. Pega a linha 3459 e enfrenta três horas e meia de viagem, quando podia tomar o trem e chegar ao destino gastando metade do tempo. Mas não faz isso porque na época dele o trem era frequentado por arruaceiros e maconheiros. Tropeça num buraco e é atingido por um bueiro voador, xinga o prefeito - só falta o prefeito ouvir, mas isso é um mero detalhe. Ganha mal como jardineiro, até queria ser outra coisa, mas sua mãe diz que é um trabalho honesto. Está certa a velha, mas que ele ganha mal, ah ganha. Planta girassóis no inverno porque o patrão manda, dali a dias quem gira é a lua. Não perguntei a religião, mas é fiel. A vida é dura para Jéurison. Ele tem preguiça de pensar.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Entrelinhas

As entrelinhas são discretas, até demais. Guardam segredos que ouvem direto dos lábios do coração. Ele, o coração, é tímido e só confia nas próprias entrelinhas. E sofre com a discrição alheia porque não consegue sozinho entender o que tentam lhe dizer. Fica acanhado, apertado, acelerado amiúde. Tenta pedir conselho à razão. Coloca empecilhos nas teorias que gostaria muito de acreditar, que procedessem. Tudo por culpa da impossibilidade de decifrar o que as entrelinhas dela escondem sem querer esconder. Um gesto, um desvio de olhar. A fuga dos olhos para qualquer lugar denuncia que há algo que o coração dela sussurrou, baixinho e quente dizendo “ei, é segredo”. Quando na verdade quer mais é que o mundo saiba, que ele saiba. Pra que os corações – dele e dela - possam bater daquele jeito que só se bate quando não há mais entrelinhas trabalhando, quando os olhos assumem o posto e entregam na maior dedoduragem o que as entrelinhas não tinham coragem de contar. Poderia ser mais fácil, mas aí, qual seria a graça? 

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Um Pouco Mais

Fala mais
um pouco mais, só
Gosto da sua voz
É doce e inocente
Ao contrário de você
Que deixa à margem qualquer dó
Ao esconder-se do sol
do meu olhar
que insiste em te ver

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Meus Aforismos Parte I

-Eu acredito no amor. Mas ele não acredita em mim.

-Penso grande, muito grande, sempre. A queda é maior, mas pelo menos dá pra cair de paraquedas.

-Escrevo muito do que gostaria de falar. Penso muito do que gostaria de escrever. Falo pouco do que deveria dizer.

-Humor é uma arte. E a arte não tem limites.

-Expectativas não servem pra nada.

-Romântico, da segunda fase ainda.

-Poesia é filosofia cantada.

-Cretino é uma palavra tão pouco usada. Gosto dela.

-Esses extremistas são um porre.

-Organizar as ideias pra quê? Gosto tanto delas bagunçadas.

-Crise não é uma palavra unilateral.

-Se todo mundo praticasse o moralismo que prega, o mundo seria um 
santuário.

-Ser muito exigente e ter mal gosto é uma combinação fatal.

-É fácil gozar a vitória. Difícil é engolir a derrota.

-Realidade aumentada é ficção.

-Há certas coisas que não consigo enxergar a genialidade atribuída a elas. 
Supervalorização da obra ou ignorância minha?

-Se o dito "Você vale o que você tem" fosse verdade, eu seria o maior canalha da paróquia.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Seja Ideal

Você está terminantemente proibido de sentir qualquer tipo de tristeza, angústia ou ausência de humor. Você é obrigado a sorrir para tudo e todos, todos os dias. É inconcebível que você deixe transparecer qualquer fraqueza. Errar é fatal. Tenha os melhores bens. E o melhores mals também. Tenha tudo. Saia por cima em qualquer situação, mesmo que você esteja errado. Quem liga para a coesão das coisas? O que importa é ser genial. Seja o mais magro, o mais belo. Só não caia na estupidez de pensar, isso te denigre, já que uma vez pensador, não vai conseguir segurar em sua boca certas coisas. Coisas essas que são verdades. E verdades não são para os perfeitos. Perfeição? Sim ela existe. Existe porque as pessoas mentem. Minta! Assim você só diz o que todos querem ouvir. Massageie o ego – próprio e o alheio.  Dispa-se de princípios, estão fora de moda. Seja imediatista e superficial. Aprofundar-se muito é sinônimo de compromisso, não é isso que você quer, não é verdade? Compre muito. Não valorize os sentimentos. Diga eu te amo a qualquer um. Isso já não significa nada mesmo. Gaste água, queime qualquer coisa. Brinque com as almas, chame-as para dançar. Faça o que quiser e faça agora. Não é necessário preocupar-se com as conseqüências. Afinal, você será esquecido de qualquer maneira.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Eu Xingaria o Papa

Eu xingaria o papa. Puta cara folgado! Sentado o dia inteiro em alguma cadeira com arabescos coloniais em madeira e almofada de veludo fingindo ser um mensageiro do Divino. Deus deve se envergonhar do papa e de todos que sonham em beijar-lhe a mão enrugada. Observando por entre as nuvens com a sua visão de altíssima definição, uma infinidade de gente ao redor de um senhor que depois de passar uns bons dias enclausurado com outros senhores - e alguns meninos (infame!) - foi eleito por uma fumaça, a Sua Santidade. Olha o absurdo! Se o tal sujeito fosse mesmo um indivíduo sacrossanto teria a honra de ser eleito pelo chefe e não pelos pares.

Mas voltando ao assunto, acho que o “vai tomar no cú” mais encorpado e volumoso que minha boca poderia proferir seria para o papa. Não que eu tenha alguma aversão religiosa. Não! Nada disso. Não sofro de teofobia – aliás, acho essa mania de colocar o sufixo fobia em qualquer frescura é um sintoma de hipocondria coletiva. O problema é com o velho e todos aqueles anciões que passaram a vida inteira internados e acham que podem dizer ao mundo o que ele deve fazer. Mas o papa é, em especial, irritante. Eu até gostava do outro, era um velhinho simpático. Mas esse, não dá. Talvez eu tenha sido influenciado pelo passado nazi dele, mas também ele não faz nada pra mudar isso!

Quer saber? É isso. O papa me irrita e eu gritaria um grande foda-se pra ele. Peço desculpas aos seus fãs mas eu tenho esse direito. O direito de desvergonhar Deus.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Ela é uma Caixa

Ela é uma caixa
Com a tampa milímetro aberta
Que exala calma um perfume só dela
Doce, voluptuoso, aquele ao pé da orelha.
Deturpa-me os sentidos
Me leva para dentro
Faz-me boneco
Vítima de lampejos
Quebra minha rotina, brinca de me arruinar
Finjo que aceito
Para efeito de continuar.
Mas ela é uma caixa
De milímetro sempre a cerrar
Esconde desejos
Não se deixa bisbilhotar
Tremendo fastio
Porém incapaz de me quedar
São o teu cheiro e minha curiosidade
Para efeito de continuar.
E ela é uma caixa
E espaço tem
Falta saber o que guarda lá dentro
Ainda não guarda ninguém
De surpresa, de Pandora
De pele macia ou de papel
Ela é uma caixa que embala
Com carinho
O inferno ou o céu.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Escapou

Tudo fica devidamente sinistro quando alguém diz o que não devia. A reação é espontânea e hilária, claro, quando não trágica. É difícil se conter em certas ocasiões, por isso entendo completamente quando aquela senhora besteira escapa de entre os lábios, chicoteada pela língua afiada como um bisturi. Se parar pra pensar, é um momento de raro desconcerto, onde todos os presentes se encontram no mesmo sentimento, na mesma sensação e, por que não, no mesmo pensamento. Entreolhares nada discretos, limpadas de garganta e posturas sendo corrigidas nas cadeiras denunciam que alguém, ali, disse uma grande merda. Faz parte. Dali a uns minutos tudo volta ao normal e a memória se encarrega de esquecer ou não. Das situações deste tipo de que lembro dou risada, das que não, talvez tenha sido melhor esquecê-las mesmo.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Fui Apresentado

Fui apresentado a uma coisa
Sem nexo
Sem medo
Sem tato
Fui escorraçado, chutado, cuspido
Pra fora
Pra dentro
Pra sempre
Ainda assim, não prego um maldizer sequer
contra isso que friamente me quer
no chão
para estender terna sua mão
quando bem entender
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