terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Fragmentos

Sem parte não há todo
Sem tudo o melhor é nada
Com o frio o calor é morno
Sem asfalto se faz estrada

Não condene o incompleto
Dele somos objetos
Conduzidos, sãos, espertos
Fazendo o feio, o belo

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

É privilégio

Constantemente sinto uma sensação indescritível de privilégio. Aquele vento que bate na face e gruda a roupa ao corpo, ao mesmo tempo em que diz algo na língua dos ventos, mas que se pode entender. Andando por uma calçada de mosaicos monocromáticos percebo o lugar, as pessoas e suas atitudes. Nada passa despercebido. Caminho por uma terra de vanguarda e astúcia. Onde o medo do ridículo não aflige a arte. O ridículo, aliás, faz parte da tentativa do genial. É um risco que se corre, e que eu e muitos topamos pagar. Ao fim das caminhadas distantes mas compensatórias, sempre me deparo com o novo, o velho, os dois. E a fascinação de presenciar, ali, tão perto, a junção dos tempos verbais, é plena. Era. É. Será. Tudo em um só lugar. Orgulha-me saber que independente da corrente ou da forma de expressão, há e em abundância, aqui e agora, a mais fina produção artística, nascida do mais puro talento e da mais corajosa audácia que o homem pode alcançar.


Coragem é o que falta para quem não vê isso tudo. Quem não enxerga beleza no rústico ou não valoriza o sofisticado por nu preconceito. Não se trata de uma guerra de classes artísticas. Trata-se da sobrevivência intelectual humana. Não importa quem ou como, ou por que. Importa a motivação, o sentimento de se fazer arte. De coração. O dinheiro? Bom. Vive-se sem ele? Então não julguemos quanto vale a arte. Aplaudamos quem a valoriza, pagando muito ou não. A inteligência do mundo está na arte. E a arte está aonde? Diga-me você.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Engraçado como são genéricos os sentimentos

Quem nunca antes não se deparou com algum trecho de algum livro escrito no século passado que parecia estar falando direta e exclusivamente contigo? Quem nunca escutou uma música cuja letra e melodia parecem encaixar-se na sua vida como se tivesse você sido a fonte de inspiração de alguém que nunca o conheceu? Alguns podem culpar a falta de originalidade. Mas eu, particularmente, aposto na qualidade genérica dos sentimentos. Passa o tempo, mudam as pessoas e eles continuam os mesmos. A vida se mostra como um grande roteiro de cinema, onde cada personagem enfrenta conflitos internos e externos que o fazem evoluir, rir ou chorar, crescer ou definhar. E como dizem, a vida imita a arte. Amores impossíveis, empregos perdidos, amizades destruídas, sucesso, fracasso. Tudo isso gera os mesmos sentimentos, as mesmas lágrimas e as mesmas gargalhadas que nenhuma pessoa até hoje aprendeu a controlar. Controle, aliás, é um sentimento, e dos mais genéricos. Digo porque. Todos acham que podem controlar suas vidas, seus pensamentos, suas atitudes. Mas não. Somos guiados, conduzidos a força extraordinária por lindos e escrotos, os genéricos e inconsequentes...sentimentos. Quer um conselho? Deixe estar.

domingo, 7 de novembro de 2010

Não adianta

Não adianta ter agasalho se faz calor
Não adianta ter remédio e não ter dor
Não adianta se aconselhar com quem nunca acertou

Não adianta andar sem caminho
Não adianta a flor sem o espinho
Não adianta o medo se nada o assustou

Não adianta a fé quando se pode ver
Não adianta o livro sem saber ler
Não adianta o mar se não tenho você

Não adianta ser perfeito se não há perfeição
Não adianta o mundo diante da solidão
Não adianta, já lhe aviso de antemão

Não adianta ganhar se a vontade é perder
Não adianta mudar se a mudança não se vê
Não adianta ser forte se a saudade vencer

Não adianta lembrar se a lembrança já foi
Não adianta falar o que não querem ouvir
Não adianta guardar o que se quer exprimir

Não adiantam declarações musicadas
Não adiantam poemas e cartas
Não adiantam palavras de contos de fadas
Não adiantam. Ainda

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Estranhamente à vontade

Energia, química, física, sei lá. Algumas pessoas são ligadas à outras de uma forma enigmática e completamente sem explicação. Não sei se algum acadêmico insano já se propôs a estudar o caso. Também não fiquei ciente se o mesmo teve a ousadia de nomear este insólito fenômeno. As causas e os porquês não são preocupantes. Agora, o que me faz meditar de modo tão curioso e infantil (no bom sentido) é o instante em que se percebe estar participando de uma cena onde dois indivíduos que nunca tinham se deparado em lugar algum desta úmida atmosféra sentem-se "estranhamente à vontade" numa conversa noturna que servira de preâmbulo para uma curta, porém agradável noite de sono. Há algum motivo? Há alguma predestinação? Não sei. Quem saberá? O certo é que em dias de total hegemonia da impessoalidade, é gratificante encontrar alguém que não limite-se a conversar sobre as condições metereológicas de um dia cinza e sem graça. Não importa no que resultará - ou resultou - este casual e inesquecível encontro. O que realmente importa é saber que você participou de um ponto único no espaço e no tempo. Sorria para o acaso, às vezes ele sorri para você.

domingo, 17 de outubro de 2010

Reflexões de um domingo à noite

O que mais teme um homem que o ato singelo da decisão? Claro que adjetivar o verbo decidir de singelo é pura ironia. A escolha de um caminho geralmente é acompanhada de variáveis que nem sempre podem ser numeradas. Ser ou não ser. Ir ou não ir. Beijar ou não beijar. Parece simples, parece fácil, mas as possíveis consequências inóspitas fazem da mente, alma e coração, o inferno pontual de cada escolha, trazendo um odioso medo do que pode acontecer. E que impiedosamente tira a doce vontade de realmente saber o que virá. Não trata-se de uma ciência exata, não há certezas. Nada é só certo ou errado. Talvez por isso a existência de um receio crônico do que está por vir. Estamos aqui para isso, viver. Amanhã não importa hoje. E hoje não importará amanhã. Somos um livro escrito sem a chance de apagar erros de concordância e coesão e que a cada página revela mistérios, amores e desilusões que uma boa trama exige. E é esse o acento agudo que sonoriza a vida, a nua sinceridade de ser quem se é.

domingo, 26 de setembro de 2010

Frases Comentadas Parte 7

"Que siga crescendo a avalanche de votos. (...) Há um bonito dia. Vamos, que a pátria espera"
                                                Hugo Chávez - Presidente da Venezuela




As orações acima foram tuitadas pelo segundo astro pop da política mundial, Hugo Chávez. Creio que não haja dúvidas sobre quem ocupa o primeiro posto. O cenário na Venezuela é de eleições legislativas e muita, mas muita desconfiança. A oposição venezuelana e o mundo temem a intervenção de Chávez no processo eleitoral, não dando chance aos adversários, e principalmente à democracia. Porém não se sabe exatamente o que se passa pela insana mente do líder bolivariano. A decisão de fraudar as eleições poderia ser um tiro no dedão do pé direito se essa ação fosse comprovada. Mas enfim, onde eu queria chegar com essa história toda? Na verdade, dei-me conta de que o voto é uma aposta em qualquer lugar do mundo. Onde se pode confiar no processo eleitoral não se pode confiar nos candidatos, e o mesmo acontece ao inverso ou ao mesmo tempo. Não confiar nem no poder das urnas, nem nos pretendentes a postular os tão sonhados cargos públicos realmente deve ser uma tristeza (maior que a tristeza tupiniquim). Mas como disse Chávez: "Vamos, que a pátria espera".  

domingo, 12 de setembro de 2010

Blasé

"Você é tão blasé!" disse ela ao descer do carro soltando o El Niño pelas ventas. Carlos não sabia exatamente o motivo de tanta irritação de sua companheira, não sabia sequer o que significava ser um cara blasé. Enquanto refletia sobre as possibilidades que, julgava terem algo a ver com o ataque histérico de Julia, ele viu do outro lado um senhor que já passeava pelos longínquos territórios da sexagenariedade. Carlos saiu do carro e foi ao encontro do velho homem, que sentado nas escadas que antecediam a porta principal de uma casa - provavelmente de sua posse - tranquilamente girando entre os dedos um caule seco de alguma flor do jardim que rodeava o espaço entre o meio fio e a porta. "Boa noite" cumprimentou Carlos estendendo a mão. "Boa noite meu filho" respondeu cordialmente o velho homem atendendo ao gesto. "Posso me sentar com o senhor? Ah perdão, me chamo Carlos por sinal". O velho homem balançou a cabeça, não se sabe se positivamente, pois não foi um movimento muito nítido, e então disse "Minha graça é Franz. E pode sentar sim, fique a vontade, mas não lhe garanto conforto, afinal não costumo receber visitas do lado de fora de minha casa." Carlos sorriu e sentou-se. Olhou para a casa de Julia e viu a janela de seu quarto acesa. Apontou para a janela e disse "Minha garota mora nesta casa, e aquela luz vem do seu quarto". Franz levantou o olhar para conseguir ver para onde o jovem apontava e perguntou "Por que então você não está lá, com ela?". Carlos respondeu "Na verdade não sei. Mas gostaria que o senhor pudesse me esclarecer algumas coisas. Não entendo as mulheres! Não adiantaria ser perfeito, elas não ficariam satisfeitas nem assim". Seu Franz riu alto de forma que sua ligeira gargalhada chegasse a ecoar pela rua deserta ajudada pelo fato de já ser tarde da noite. Presenteou Carlos com dois tapinhas no joelho e disse "Você acha sinceramente que estou sentado aqui, nas escadas do meu jardim às onze da noite, porque quero tomar um ventinho? Não meu jovem, não é por isso. Antes o fosse. Na atual conjuntura, estou começando a achar que ficar do lado de fora é até melhor. Elas (as mulheres) são assim mesmo, são uma sala lotada de gás onde a mínima faísca pode causar resultados catastróficos. Não adianta tentar entendê-las, não adianta tentar consertá-las, a vida as fez assim". Carlos olhou novamente para a janela de Julia e viu a luz se apagar. Voltou a atenção para Seu Franz e indagou "Pois é, tentar entender as mulheres é uma tarefa impossível. Mas eu queria entender pelo menos os xingamentos que elas utilizam. Hoje mesmo é ela (a Julia) me chamou de blasé! Que raios isso siginifica?" Franz levantou-se, descansou sua mão no ombro esquerdo de Carlos e disse "Quem liga? Elas leem tudo isso em alguma revista. O xingamento muda, porque a revista muda com o tempo, mas no final o recado é sempre o mesmo. Vai se acostumando, porque agora elas têm a internet, meu filho".        

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Porque o Movimento é Coletivo




Chega um certo momento na vida em que se percebe que a nossa existência é apenas um elemento de algo muito maior. Somos células de um organismo que não sabemos para onde vai. Achamos que não temos poder de mudar o rumo desse organismo, por diminuirmos nossa importância só por acreditar que uma célula não tem essa capacidade. E de fato não tem. Uma célula não altera nada nem ninguém. É preciso juntar-se com outras, e mais outras e mais outras. E então, quando se tem força suficiente para mudar o comportamento, o rumo, a vida, é hora de tomar uma atitude. E você deve tomar muito cuidado com o grupo de células em que vai se juntar. Há aquelas que se unem para estancar um sangramento e fechar o ferimento, mas também há aquelas que sem piedade constituem um câncer, talvez porque não tenham noção de que podem se afundar junto com o organismo caso ele padeça.



É por isso que um grupo de células muito bem intencionadas criaram o Movimento Coletivo. A ideia é simples, mas o desafio é grande. Em tempos de escassez intelectual na grande massa, o MO busca plantar as sementes do conhecimento e da cultura ao mesmo tempo em que mostra que a união pode sim mudar o ambiente em que se vive. A epidemia de ignorância que invadiu a sociedade tem cura, basta abrirmos os olhos do maior número de pessoas possível para que vejam a realidade e tomem consciência das inúmeras possibilidades de provocar uma mudança. Uma mudança de atitude que desperte a vontade de fazer parte ativamente desse algo maior que é o organismo. Porque apesar de não sabermos para onde ele vai, temos que mantê-lo vivo e cheio de saúde, pois nossa existência depende disso e se quisermos deixar um organismo melhor para as células futuras, precisamos fazer algo agora, antes que seja tarde demais.



Junte-se a esta causa. Para saber mais acesse o site www.movimentocoletivo.com.br e siga o Twitter @Mov_Coletivo.


Porque o Movimento é Coletivo.

sábado, 4 de setembro de 2010

Soneto Saudoso ou Vice-Versa

Sol e Lua
Seco e chuva
O tempo é volátil demais
Até com o que nos trás

Sempre acreditei no destino
É mais fácil ter um caminho
assim como um menino
que não quer parar de brincar

Não é sempre que chove
E quando chove talvez não molhe
A terra onde eu vou pisar

Também não é segredo
que eu tenho medo
quem nunca teve pode uma pedra arremessar
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A obra Assunto Popular Brasileiro de Diogo Dias foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada