sexta-feira, 15 de abril de 2011

My Generation Mulamba

A minha geração está meio estranha. Não sei dizer ao certo o que me incomoda nos meus "iguais". Algumas coisas saltam aos olhos, que se atentos, observam um festival de contradições. São coisas da idade, mas convenhamos, há certo exagero. É impressionante a quantidade de gênios da minha geração. Como todos, incompreendidos, desabafam seu descontentamento com a sociedade, com o coleguinha de trabalho que ele tanto odeia e com  todos os ignorantes imprestáveis que insistem em migrar do Orkut para o Facebook.

Ó Santo Zuckerberg, salvai-nos da mediocridade das almas que não sabem usar as redes sociais! Uma questão de assaz importância para a humanidade. Enquanto alguns covardes lutam suas lutas desplugados, nós, os reais revolucionários estaremos sempre a postos caso um TT que não mereça destaque entre na gabaritada lista de tendências. Temos que lutar contra a utilização vazia e despretenciosa dos nossos tão amados mecanismos de comunicação da internet.

Tanta autoridade no julgamento do nível intelectual do outro se deve ao já citado estado de genialidade da minha geração. Os intelectuais estão espalhados pelas timelines de todo o mundo, discorrendo sobre assuntos que emergem como bolhas de um caldeirão chamado Cultura Pop. Almas sem salvação vagam dividindo a opinião pública, mas não os gênios, os gênios são diferentes. Justin Bieber, BBB e seus seguidores são fulminados sem piedade, palavras de maldição são jogadas contra aqueles que cospem na cara de Andy Wharol e Tarantino. "Hereges! Hereges!" chingam os gênios quase sem fôlego de tanta velocidade empregada ao teclar.

Minha geração. Que orgulho de #fazerparte!

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A Primeira Mentira

Logo que saiu daquele úmido e gelatinoso lar desatou a chorar. Não antes de levar na bunda um belo tapa mesmo sem saber o que era. Doeu. Aprendeu a primeira lição. Uns homens, que num primeiro momento pareciam todos iguais o reviravam todo e passavam uma coisa macia e áspera ao mesmo tempo pelo seu corpo. Levaram-no até uma mulher que chorava às bicas, então pensou "Devem ter feito aquilo que fizeram comigo com ela também". Ouviu uma voz dizendo "Olha a mamãe". Já tinha escutado algo parecido durante alguns meses antes de se mudar. A "mamãe" disse "Que lindo é o meu bebê!" Ouviu sua primeira mentira. Era primeiro de abril.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Que não existe.


Sonhou com ela. Ela que nem sequer existe. Um rosto, cabelos castanhos e olhos também. “Que estranho” pensava. Surpreendeu-se com o fato de sonhar com alguém que nunca viu. Se viu, a imagem bela e esguia deve ter-se ido direto, sem pausas para um lugarzinho na mente reservado para lindos sonhos. Ficou imaginando nomes. Traçou hipóteses com todo o alfabeto. Torceu para que não começasse com x ou com z ou com y ou com w. Talvez w fosse digerível, mas preferia que não. Ela não estava sozinha na projeção noturna que o deliciava enquanto dormia. Estavam todos lá, numa espécie de festividade corriqueira. Um churrasco ou coisa parecida. Como se estivesse acordado, vendo tudo de fora, torcia para o sonho não acabar. Para que aquilo que sentia, naquela hora, de olhos bem fechados e corpo entorpecido, não terminasse nunca. Mas o galo cantou em algum lugar muito distante para ser ouvido. Raios cinzentos de sol iluminaram o quarto e incomodaram as retinas já desprotegidas pela transparência das pálpebras. Acordou. Feliz por ter sonhado. Ainda mais por ter lembrado dela. Que não existe. Ou se existe não conhece. Mas fez de uma noite qualquer um dia seguinte especial.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O Infeliz Desejo

O desejo é irônico e sagaz. Aparece sabendo que é a hora mais péssima possível de dar a face. Não quer saber das consequências, dos obstáculos. Aparece. Assim como desaparece após o ritual que o conclui e sacia. De carne ou de gana. É ele, plácido e cínico. Com seus objetivos brandos para si, mas luciféricos para aquele que o é atormentado. Resta a angústia de conviver desejando. Coisas, pessoas e sentimentos. Desejo é por vezes confundido com necessidade. Transtorno grave. Pois sabe-se que são muito diferentes uma da outra. O homem nasceu nu, mas morre empacotado dentro de trajes que nunca usou a vida inteira. Desejo? Ou necessidade? No fim acaba-se preso, trancafiado dentro de medidas, valores. Desejando ser livre, já sendo. Desejando ser feliz, já sendo. Necessitando desejar, já saciado. 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Era Ela

Era um dia ruim. Acordou como se não tivesse dormido. Mas se consolou por crer que o dia anterior havia sido pior. Não conseguia tirar da mente certos pensamentos carregados o suficiente para encher seu coração de angústia. Saiu de casa com a certeza de que nada o desviaria do caminho torturador de um dia cheio de tédio e da escassez de bom humor. Direcionava os olhos para todos os cantos e pessoas. Imaginava se eram felizes. Mas os semblantes eram pálidos demais para que pudesse tirar qualquer conclusão. Não conseguia parar de repetir em pensamento o que sempre sonhou dizer. E percebeu que tudo o que sonhara dizer, já foi dito. E sua espinha gelava quando relembrava tais fatos, e usava o auto flagelo emocional por entender que quando disse não disse da forma mais correta, ou emocionante. Passou o dia todo refletindo, sobre possíveis desfechos. Trágicos, felizes, felizes pra caralho. Mas é complicado deixar a felicidade ganhar, não é? Os trágicos, por mais que fossem minoria, causavam maior estrago. Ao voltar para casa, um certo vazio o tomou. Atacou diretamente a mente e o coração. Desesperou-se como se estivesse com câimbras na água, naquele lugar do mar onde já não dá pé. Queria beijá-la ali, naquela hora. Mas ela não estava. Não se sabe onde ela estava. "Não importa" dizia ele, "Só preciso beijá-la". Tentou ligar seu pensamento ao dela. O sinal estava ocupado. Chegou em casa com a agonia de ter que encontrar alguém, qualquer alguém. Queria ficar só. E deu uma puta sorte. Ao passar a chave e abrir a porta, encontrou sua maior companheira, a solidão. Ganhou um beijo doce de boas vindas que o fez lacrimejar. Despiu-se. Peça por peça. Pegou o violão e acariciou as cordas sem vibrá-las. Um carinho mudo. Até que tocou. A mesma música umas vinte e cinco vezes. A canção era sua. Não estava pronta, mas ele já a adorava. A cada nova interpretação, rimas, melodias e ritmos trocavam de lugar em sua memória. Cada vez que tocava, uma nova música surgia, mas para ele, era sempre a mesma pois dizia somente uma coisa. Cansou de pressionar os antigos calos contra as cordas de aço. Sentiu-se sozinho demais e resolveu ligar a TV para ver se algum personagem poderia trocar meia duzia de palavras com ele. Lembrou do uísque que tinha guardado e deu o primeiro sorriso do dia. Caminhou até seu quarto com o copo cheio do líquido de cor maltada e aroma de madeira. O primeiro gole foi mais quente do que imaginava, mas mesmo assim gostou. Sentiu o destilado descer pelo corpo, esquentando-o inteiro num prazer solitário e reconfortante. Colocou Ela é Carioca na vitrola. Chamou a solidão para dançar, e ela prontamente aceitou. Os passos arrastados no cubículo do seu quarto o faziam desejar que Ela fosse realmente carioca, só para fingir que foi ele quem a escreveu. O acaso não o deixou se passar por Jobim. Mas sua musa com certeza se passaria por carioca. De alguma forma a canção se foi e restou o silêncio e o copo pela metade ainda. Lembrou de Tatuagem, de Chico. A música tocou sem parar até que o uísque se fosse por inteiro. Ele bailava com a solidão. Via em sua sombra uma beleza sublime que o convenceu de que deveria pintá-la num quandro em formas geométricas negras. Era só torpor. Era a bailarina que se alucina. Era a cicatriz risonha e corrosiva. Era a saudade Dela.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Fragmentos

Sem parte não há todo
Sem tudo o melhor é nada
Com o frio o calor é morno
Sem asfalto se faz estrada

Não condene o incompleto
Dele somos objetos
Conduzidos, sãos, espertos
Fazendo o feio, o belo

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

É privilégio

Constantemente sinto uma sensação indescritível de privilégio. Aquele vento que bate na face e gruda a roupa ao corpo, ao mesmo tempo em que diz algo na língua dos ventos, mas que se pode entender. Andando por uma calçada de mosaicos monocromáticos percebo o lugar, as pessoas e suas atitudes. Nada passa despercebido. Caminho por uma terra de vanguarda e astúcia. Onde o medo do ridículo não aflige a arte. O ridículo, aliás, faz parte da tentativa do genial. É um risco que se corre, e que eu e muitos topamos pagar. Ao fim das caminhadas distantes mas compensatórias, sempre me deparo com o novo, o velho, os dois. E a fascinação de presenciar, ali, tão perto, a junção dos tempos verbais, é plena. Era. É. Será. Tudo em um só lugar. Orgulha-me saber que independente da corrente ou da forma de expressão, há e em abundância, aqui e agora, a mais fina produção artística, nascida do mais puro talento e da mais corajosa audácia que o homem pode alcançar.


Coragem é o que falta para quem não vê isso tudo. Quem não enxerga beleza no rústico ou não valoriza o sofisticado por nu preconceito. Não se trata de uma guerra de classes artísticas. Trata-se da sobrevivência intelectual humana. Não importa quem ou como, ou por que. Importa a motivação, o sentimento de se fazer arte. De coração. O dinheiro? Bom. Vive-se sem ele? Então não julguemos quanto vale a arte. Aplaudamos quem a valoriza, pagando muito ou não. A inteligência do mundo está na arte. E a arte está aonde? Diga-me você.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Engraçado como são genéricos os sentimentos

Quem nunca antes não se deparou com algum trecho de algum livro escrito no século passado que parecia estar falando direta e exclusivamente contigo? Quem nunca escutou uma música cuja letra e melodia parecem encaixar-se na sua vida como se tivesse você sido a fonte de inspiração de alguém que nunca o conheceu? Alguns podem culpar a falta de originalidade. Mas eu, particularmente, aposto na qualidade genérica dos sentimentos. Passa o tempo, mudam as pessoas e eles continuam os mesmos. A vida se mostra como um grande roteiro de cinema, onde cada personagem enfrenta conflitos internos e externos que o fazem evoluir, rir ou chorar, crescer ou definhar. E como dizem, a vida imita a arte. Amores impossíveis, empregos perdidos, amizades destruídas, sucesso, fracasso. Tudo isso gera os mesmos sentimentos, as mesmas lágrimas e as mesmas gargalhadas que nenhuma pessoa até hoje aprendeu a controlar. Controle, aliás, é um sentimento, e dos mais genéricos. Digo porque. Todos acham que podem controlar suas vidas, seus pensamentos, suas atitudes. Mas não. Somos guiados, conduzidos a força extraordinária por lindos e escrotos, os genéricos e inconsequentes...sentimentos. Quer um conselho? Deixe estar.

domingo, 7 de novembro de 2010

Não adianta

Não adianta ter agasalho se faz calor
Não adianta ter remédio e não ter dor
Não adianta se aconselhar com quem nunca acertou

Não adianta andar sem caminho
Não adianta a flor sem o espinho
Não adianta o medo se nada o assustou

Não adianta a fé quando se pode ver
Não adianta o livro sem saber ler
Não adianta o mar se não tenho você

Não adianta ser perfeito se não há perfeição
Não adianta o mundo diante da solidão
Não adianta, já lhe aviso de antemão

Não adianta ganhar se a vontade é perder
Não adianta mudar se a mudança não se vê
Não adianta ser forte se a saudade vencer

Não adianta lembrar se a lembrança já foi
Não adianta falar o que não querem ouvir
Não adianta guardar o que se quer exprimir

Não adiantam declarações musicadas
Não adiantam poemas e cartas
Não adiantam palavras de contos de fadas
Não adiantam. Ainda

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Estranhamente à vontade

Energia, química, física, sei lá. Algumas pessoas são ligadas à outras de uma forma enigmática e completamente sem explicação. Não sei se algum acadêmico insano já se propôs a estudar o caso. Também não fiquei ciente se o mesmo teve a ousadia de nomear este insólito fenômeno. As causas e os porquês não são preocupantes. Agora, o que me faz meditar de modo tão curioso e infantil (no bom sentido) é o instante em que se percebe estar participando de uma cena onde dois indivíduos que nunca tinham se deparado em lugar algum desta úmida atmosféra sentem-se "estranhamente à vontade" numa conversa noturna que servira de preâmbulo para uma curta, porém agradável noite de sono. Há algum motivo? Há alguma predestinação? Não sei. Quem saberá? O certo é que em dias de total hegemonia da impessoalidade, é gratificante encontrar alguém que não limite-se a conversar sobre as condições metereológicas de um dia cinza e sem graça. Não importa no que resultará - ou resultou - este casual e inesquecível encontro. O que realmente importa é saber que você participou de um ponto único no espaço e no tempo. Sorria para o acaso, às vezes ele sorri para você.
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