quinta-feira, 26 de maio de 2011

Frases Comentadas Parte 8

"Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado".
                                              Por uma vida melhor -  Livro distribuído a 4.236 escolas do país pelo MEC.




Fogo cruzado entre a opinião pública e os poucos defensores do tal livro distribuído pela rede de ensino deste letrado país. Há certo fundamento quando a defesa alega que é preciso respeitar os termos coloquiais de nossa língua. Concordo, em partes. Li e logo depois sorri, como não haveria de ser de outra maneira, uma declaração que dizia algo como "não se pode julgar uma pessoa pelos seus erros e acertos linguísticos". Me perguntei: Como não!? 


Falar e escrever errado não pode ser considerado normal. A comunicação, seja qual for sua forma, é feita de clareza. Pintou ruído? Fudeu. Gramática, ortografia; regras precisam ser aprendidas para só depois serem quebradas com a propriedade de quem raciocina o suficiente para questionar. Agora me digam, se é possível um garoto em formação distinguir entre o certo, o errado e o aceitável numa sentença gravada num livro didático. 


No fundo entendi o que os autores pretendiam. "Debater o uso da variação linguística para ressaltar o papel e a importância da norma culta no mundo letrado". Ok, abordagem interessante. Mas se esqueceram de puxar da memória onde moram e como é precário o nosso ensino. Crianças na quinta série sequer interpretam um texto simples sem dificuldades. Para que esse debate pudesse acontecer, teríamos que estar no mínimo em 2030. 

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Ah, as minhas mãos frias.

Eu sei quando está frio. Sei, porque minhas mãos me contam. Meus dedos sentem antes de todo mundo que a temperatura está caindo. E como uma satisfação pueril, eu me orgulho disso. De ter mãos alertas às reviravoltas climáticas. Por que? A desculpa é tão inocente quanto eu sou. Porque acredito pio no ditado que dá aos seres de mãos frias um pulsante e escarlate coração quente. Podem ficar com esse sorriso de canto de boca, e dizer "nossa!". Eu não ligo. É um motivo bom o bastante para mim, um motivo lírico e que faz mais sentido do que qualquer explicação científica sobre a relação entre metereologia e epiderme. Prefiro assim. Inventar meu próprio universo, cercado de simbologia e significados, onde a razão é parte - e só uma parte - da minha íntima e única realidade. Gostaria muito de convidá-los a conhecer esse meu mundo. Mas ele está longe demais, dentro de mim.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Bobagem!

Bobagem! Bobagem! Bobagem! Tudo o que todo mundo lê, ouve ou vê por aí, agora é bobagem. A chance de alguma coisa fazer sentido é mínima frente à resistência em considerar que a opinião do outro pode ser, sim, válida. Concordo com vocês chorões que a vida está difícil e que não se pode confiar em qualquer ladainha solta aos quatro ventos por aí. Mas espere. Daí eleger dois ou três gurus e seguir de maneira religiosamente fiel as suas sábias palavras já é demais. É contraditório. Com esse mar de gente querendo se expressar, vocês recorrem ao velho testamento, digo, pensamento? 

É preciso destreza e inteligência para aproveitar o mundo. Porque hoje, on ou off, ele é um só. E as opiniões, escritas ou da boca, também são as mesmas. E por onde pegar os falsos pensadores? Como desmascarar os falsos profetas do mundo moderno? Dizê-lo-ei. Pelo argumento meus amigos! Pelo argumento! Quem falou, por onde, como. Nada disso importa. O que diferencia uma informação útil de uma bogagem é o argumento.

O que é pra você esse texto? Bobagem?
Que seja.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Queria um endereço


De tudo o que eu poderia desejar uma só coisa me atormenta o querer: um endereço. Não para morar, construir ou trabalhar. Não para visitar, ostentar. Queria mesmo era um endereço para enviar-lhe um pequeno adereço contido dentro de um sinal de carinho. Um adereço que contém espinho, mas que tem um vermelho, um rosa, um branco que só faz compensar a pua que a natureza lhe colocou no caule. Só queria um nome de conde, de presidente ou de herói. Só queria um número, par ou ímpar, não importa o lado. Só queria um endereço. Um endereço para mandar flores.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Um coração nunca é
um coração se só está
é metade, uma parte, só.
Um músculo apesar de robusto
Só.

Um coração sempre é
um lar se aberto está
para um novo ou antigo amor
mesmo com tantos os sustos
não se fechar, para não ficar
Só.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

My Generation Mulamba

A minha geração está meio estranha. Não sei dizer ao certo o que me incomoda nos meus "iguais". Algumas coisas saltam aos olhos, que se atentos, observam um festival de contradições. São coisas da idade, mas convenhamos, há certo exagero. É impressionante a quantidade de gênios da minha geração. Como todos, incompreendidos, desabafam seu descontentamento com a sociedade, com o coleguinha de trabalho que ele tanto odeia e com  todos os ignorantes imprestáveis que insistem em migrar do Orkut para o Facebook.

Ó Santo Zuckerberg, salvai-nos da mediocridade das almas que não sabem usar as redes sociais! Uma questão de assaz importância para a humanidade. Enquanto alguns covardes lutam suas lutas desplugados, nós, os reais revolucionários estaremos sempre a postos caso um TT que não mereça destaque entre na gabaritada lista de tendências. Temos que lutar contra a utilização vazia e despretenciosa dos nossos tão amados mecanismos de comunicação da internet.

Tanta autoridade no julgamento do nível intelectual do outro se deve ao já citado estado de genialidade da minha geração. Os intelectuais estão espalhados pelas timelines de todo o mundo, discorrendo sobre assuntos que emergem como bolhas de um caldeirão chamado Cultura Pop. Almas sem salvação vagam dividindo a opinião pública, mas não os gênios, os gênios são diferentes. Justin Bieber, BBB e seus seguidores são fulminados sem piedade, palavras de maldição são jogadas contra aqueles que cospem na cara de Andy Wharol e Tarantino. "Hereges! Hereges!" chingam os gênios quase sem fôlego de tanta velocidade empregada ao teclar.

Minha geração. Que orgulho de #fazerparte!

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A Primeira Mentira

Logo que saiu daquele úmido e gelatinoso lar desatou a chorar. Não antes de levar na bunda um belo tapa mesmo sem saber o que era. Doeu. Aprendeu a primeira lição. Uns homens, que num primeiro momento pareciam todos iguais o reviravam todo e passavam uma coisa macia e áspera ao mesmo tempo pelo seu corpo. Levaram-no até uma mulher que chorava às bicas, então pensou "Devem ter feito aquilo que fizeram comigo com ela também". Ouviu uma voz dizendo "Olha a mamãe". Já tinha escutado algo parecido durante alguns meses antes de se mudar. A "mamãe" disse "Que lindo é o meu bebê!" Ouviu sua primeira mentira. Era primeiro de abril.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Que não existe.


Sonhou com ela. Ela que nem sequer existe. Um rosto, cabelos castanhos e olhos também. “Que estranho” pensava. Surpreendeu-se com o fato de sonhar com alguém que nunca viu. Se viu, a imagem bela e esguia deve ter-se ido direto, sem pausas para um lugarzinho na mente reservado para lindos sonhos. Ficou imaginando nomes. Traçou hipóteses com todo o alfabeto. Torceu para que não começasse com x ou com z ou com y ou com w. Talvez w fosse digerível, mas preferia que não. Ela não estava sozinha na projeção noturna que o deliciava enquanto dormia. Estavam todos lá, numa espécie de festividade corriqueira. Um churrasco ou coisa parecida. Como se estivesse acordado, vendo tudo de fora, torcia para o sonho não acabar. Para que aquilo que sentia, naquela hora, de olhos bem fechados e corpo entorpecido, não terminasse nunca. Mas o galo cantou em algum lugar muito distante para ser ouvido. Raios cinzentos de sol iluminaram o quarto e incomodaram as retinas já desprotegidas pela transparência das pálpebras. Acordou. Feliz por ter sonhado. Ainda mais por ter lembrado dela. Que não existe. Ou se existe não conhece. Mas fez de uma noite qualquer um dia seguinte especial.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O Infeliz Desejo

O desejo é irônico e sagaz. Aparece sabendo que é a hora mais péssima possível de dar a face. Não quer saber das consequências, dos obstáculos. Aparece. Assim como desaparece após o ritual que o conclui e sacia. De carne ou de gana. É ele, plácido e cínico. Com seus objetivos brandos para si, mas luciféricos para aquele que o é atormentado. Resta a angústia de conviver desejando. Coisas, pessoas e sentimentos. Desejo é por vezes confundido com necessidade. Transtorno grave. Pois sabe-se que são muito diferentes uma da outra. O homem nasceu nu, mas morre empacotado dentro de trajes que nunca usou a vida inteira. Desejo? Ou necessidade? No fim acaba-se preso, trancafiado dentro de medidas, valores. Desejando ser livre, já sendo. Desejando ser feliz, já sendo. Necessitando desejar, já saciado. 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Era Ela

Era um dia ruim. Acordou como se não tivesse dormido. Mas se consolou por crer que o dia anterior havia sido pior. Não conseguia tirar da mente certos pensamentos carregados o suficiente para encher seu coração de angústia. Saiu de casa com a certeza de que nada o desviaria do caminho torturador de um dia cheio de tédio e da escassez de bom humor. Direcionava os olhos para todos os cantos e pessoas. Imaginava se eram felizes. Mas os semblantes eram pálidos demais para que pudesse tirar qualquer conclusão. Não conseguia parar de repetir em pensamento o que sempre sonhou dizer. E percebeu que tudo o que sonhara dizer, já foi dito. E sua espinha gelava quando relembrava tais fatos, e usava o auto flagelo emocional por entender que quando disse não disse da forma mais correta, ou emocionante. Passou o dia todo refletindo, sobre possíveis desfechos. Trágicos, felizes, felizes pra caralho. Mas é complicado deixar a felicidade ganhar, não é? Os trágicos, por mais que fossem minoria, causavam maior estrago. Ao voltar para casa, um certo vazio o tomou. Atacou diretamente a mente e o coração. Desesperou-se como se estivesse com câimbras na água, naquele lugar do mar onde já não dá pé. Queria beijá-la ali, naquela hora. Mas ela não estava. Não se sabe onde ela estava. "Não importa" dizia ele, "Só preciso beijá-la". Tentou ligar seu pensamento ao dela. O sinal estava ocupado. Chegou em casa com a agonia de ter que encontrar alguém, qualquer alguém. Queria ficar só. E deu uma puta sorte. Ao passar a chave e abrir a porta, encontrou sua maior companheira, a solidão. Ganhou um beijo doce de boas vindas que o fez lacrimejar. Despiu-se. Peça por peça. Pegou o violão e acariciou as cordas sem vibrá-las. Um carinho mudo. Até que tocou. A mesma música umas vinte e cinco vezes. A canção era sua. Não estava pronta, mas ele já a adorava. A cada nova interpretação, rimas, melodias e ritmos trocavam de lugar em sua memória. Cada vez que tocava, uma nova música surgia, mas para ele, era sempre a mesma pois dizia somente uma coisa. Cansou de pressionar os antigos calos contra as cordas de aço. Sentiu-se sozinho demais e resolveu ligar a TV para ver se algum personagem poderia trocar meia duzia de palavras com ele. Lembrou do uísque que tinha guardado e deu o primeiro sorriso do dia. Caminhou até seu quarto com o copo cheio do líquido de cor maltada e aroma de madeira. O primeiro gole foi mais quente do que imaginava, mas mesmo assim gostou. Sentiu o destilado descer pelo corpo, esquentando-o inteiro num prazer solitário e reconfortante. Colocou Ela é Carioca na vitrola. Chamou a solidão para dançar, e ela prontamente aceitou. Os passos arrastados no cubículo do seu quarto o faziam desejar que Ela fosse realmente carioca, só para fingir que foi ele quem a escreveu. O acaso não o deixou se passar por Jobim. Mas sua musa com certeza se passaria por carioca. De alguma forma a canção se foi e restou o silêncio e o copo pela metade ainda. Lembrou de Tatuagem, de Chico. A música tocou sem parar até que o uísque se fosse por inteiro. Ele bailava com a solidão. Via em sua sombra uma beleza sublime que o convenceu de que deveria pintá-la num quandro em formas geométricas negras. Era só torpor. Era a bailarina que se alucina. Era a cicatriz risonha e corrosiva. Era a saudade Dela.
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